Revista Criança Cidadã - Matérias

O orgulho da Orquestra

Edição 01 - Abril/Maio 2010

Não é uma rotina fácil. Acorda cedo, pega o metrô e um ônibus para chegar pontualmente, às 8h, na renomada Academia de Música em Varsóvia, na Polônia. Às 14h, suas aulas escolares terminam - e quem disse que é hora de voltar para casa? Júlio Carlos Rocha da Silva, 15, continua na escola para praticar o que mais gosta: violino. Somente às 20h é que o spalla, principal violinista da Orquestra Criança Cidadã, chega em casa.

São aulas de matemática, polonês, biologia, geografia, história e música. As de teoria musical, antes ministradas à base do piano, hoje já não fazem parte da grade escolar de Júlio. Somente as práticas estão no dia a dia do aluno. E é com o conceituado violista Tomasz Radziwonowicz que o spalla tem suas aulas. "Ele pega no pé dos alunos igual ao maestro Cussy, mas comigo é diferente", afirma. "Eu estudo violino porque eu gosto e quero ser um profissional e não porque os professores ficam no meu pé", orgulhou-se Júlio Carlos.

Apesar de as aulas serem ministradas em inglês, Júlio confessa que fala "mil vezes melhor polonês" do que o idioma. "Imagine só aprender teoria musical em polonês?! Ainda bem que muita coisa eu aprendi na Orquestra", brincou. Carlos tem muitos amigos, mas uma amiga brasileira é a mais próxima e o ajuda quando o assunto é o idioma.

A bolsa de estudos de 12 meses foi dada a Júlio Carlos através de uma parceria com a Orquestra Criança Cidadã e do Rotary Club. O investimento de R$ 12 mil dá direito, além da bolsa, a passagens e roupas de frio. Lá, ele dorme no aconchego de uma família rotariana.

Os especialistas deixam claro que o intercâmbio é muito merecido - Júlio Carlos já é considerado uma das grandes promessas de Pernambuco. "Veja só o Júlio. Se não fosse por esse projeto Criança Cidadã, como saberíamos que nosso Estado tinha alguém desse porte? E hoje ele está aí, estudando no exterior", afirmou o introdutor do método Suzuki de iniciação musical em Pernambuco e na Paraíba, professor José Ademar Rocha.

Inicialmente, a bolsa de estudos duraria até o próximo mês de julho, quando o intercambista voltaria para o Brasil. Mas a Orquestra Criança Cidadã - e o próprio Júlio Carlos - torcem por uma extensão do prazo. "Eu quero voltar para terminar meus estudos escolares, mas eu estou adorando a oportunidade de poder estudar fora."

E surge mais um talento

Com a viagem de Júlio Carlos à Varsóvia, quem assumiu o posto de spalla da Orquestra foi o jovem João Pedro Lima, 14. Depois de se destacar, principalmente, nos solos das apresentações, João agora é braço direito do maestro, guiando os colegas nas performances. "Para ser spalla, não é preciso apenas ter domínio completo do instrumento. Antes de tudo, é preciso ter caráter", explica o maestro Cussy.

Antes de ser um Menino do Coque, João Pedro tocava bateria na ONG Arte e Vida. Quando o primo lhe informou sobre o projeto Orquestra Criança Cidadã, ele logo se interessou em fazer o teste para começar a estudar música.

Atualmente, João Pedro já participou de mais de cem apresentações, inclusive no programa televisivo do Faustão, quando tinha 12 anos de idade e apenas cinco meses de prática com o violino. Ele afirma que a sua maior influência no meio musical é o maestro Cussy de Almeida. "Eu quero ser como o maestro, representar o Brasil em outros países", diz.

O jovem instrumentista está na oitava série do Ensino Fundamental. Com o ano do vestibular se aproximando, João Pedro já confirma o desejo de cursar Música na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele pretende estudar na Europa após se profissionalizar. "Acho que a Europa é um grande polo de escolas para aperfeiçoamento musical", afirma.

João Pedro sonha. Mas, enquanto se dedica à Orquestra, também faz o que todo menino de 14 anos costuma fazer: jogar bola e videogame, assistir a filmes de ação e comédia, sem se esquecer de apreciar músicas ciganas, regionais e as composições de Mozart. (Sthephanie Melo)

Confira outras edições