Revista Criança Cidadã - Matérias

Artigo - Psicologia do Esporte: atleta em formação

Edição 27 - Setembro/Dezembro 2018

Psicóloga da Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Ipojuca

O esporte como se organiza hoje, em forma de espetáculo, pode ser considerado um fenômeno de múltiplas dimensões, cuja evolução se relaciona com aspectos políticos, econômicos, culturais e sociais. Antes, o esporte tinha uma proposta mais recreativa e educacional, enquanto nos dias atuais, ao se iniciar uma prática esportiva, há uma cobrança de apresentar o máximo do seu potencial em um curto espaço de tempo. O maior rendimento hoje não é suficiente amanhã, pois toda a sociedade exige que a cada dia ultrapassem seus limites. Esse conceito de alto rendimento manifesta-se já no esporte infantojuvenil, visto que a formação do atleta visa a sua exposição para o mundo esportivo e, consequentemente, para resultados competitivos. Nesta perspectiva, a preparação de crianças e adolescentes atletas não deve levar em consideração apenas os aspectos físicos e técnicos referentes à modalidade praticada, mas também os fatores psicológicos e sociais que interferem em seu desenvolvimento.

A Psicologia do Esporte trabalha na conquista de um melhor desempenho esportivo. No caso do atleta infantojuvenil, ela proporciona condições de se atingir essa performance em competições e treinamentos, compreendendo os processos envolvidos na situação esportiva e construindo estratégias em conjunto com o atleta, a família e o treinador. A atuação da Psicologia do Esporte está voltada para preparar psicologicamente o atleta para a obtenção da máxima eficiência no seu rendimento e desenvolvimento, mas tendo como prioridade sua saúde mental. Busca-se compreender os sentidos que a prática esportiva pode proporcionar e a influência que exerce na construção de suas identidades sociais e culturais.

A Psicologia se utiliza do esporte para a promoção de competências para o desenvolvimento humano. Isso porque muitas habilidades aprendidas nos esportes, sejam pessoais, interpessoais, cognitivas ou físicas, podem ser transferidas para outros domínios da vida pública e privada, possibilitando que a criança e o adolescente exerçam maior controle sobre a própria vida, além de facilitarem a interação com o ambiente e sua modificação.

Isto é facilmente verificável quando atentamos para algumas habilidades desenvolvidas nas práticas esportivas, tais como a necessidade de funcionar sob pressão, resolver problemas, cumprir prazos, aceitar desafios, estabelecer metas, lidar tanto com o sucesso quanto com o fracasso, trabalhar em equipe, ter pensamento criativo e crítico, ter habilidades de comunicação, receber um feedback e beneficiar-se do mesmo – além das capacidades cognitivas, como coordenação, percepção espacial, propriocepção, tomada de decisão, velocidade de reação e raciocínio; de controle emocional ao passar por experiências de medo, timidez, ansiedade, raiva, angústia, euforia, ciúme, nervosismo; e das cívicas, como a assimilação de regras e compreensão de suas respectivas funções, respeito às figuras de autoridade, identificação nacional. Todas essas capacidades contribuem para a construção de um adulto mais ativo e saudável fisicamente e emocionalmente.

O nosso trabalho acontece no dia a dia do atleta, observando os treinamentos e os jogos, para detectar fatores psicológicos que podem estar interferindo positivamente ou negativamente em seu rendimento e desenvolvimento. Utilizamos diversos recursos para as avaliações, tais como: entrevista com o atleta e familiares, observações de comportamento, relatórios dos treinadores, avaliação de gravações em vídeo (dos jogos ou treinos), testes e outros instrumentos necessários para mapear o perfil psicológico do atleta em formação e, assim, conhecer suas demandas e possibilidades psicológicas e emocionais. Após a elaboração do perfil, os fatores psicológicos são treinados e aperfeiçoados por meio de técnicas específicas. As intervenções fazem parte de um plano de trabalho para alcançar as metas em curto, médio e longo prazos.

Deste modo, as intervenções em Psicologia do Esporte contribuem para que essas crianças e adolescentes se sintam capazes de exercer suas potencialidades e de vislumbrar as possibilidades que a prática esportiva pode oferecer.

Confira outras edições