Revista Criança Cidadã - Matérias

Perfil - Do heavy metal à cerveja artesanal, com muita música

Edição 27 - Setembro/Dezembro 2018

Atualmente requisitado pelas composições camerísticas, a vida musical de Ivanubis teve início como guitarrista de bandas de garagem e hoje divide espaço com um hobby etílico

Ivan Cordeiro de Souza, mais conhecido como Ivanubis, costumava ouvir rock e heavy metal no rádio. Decidiu tomar aulas particulares de violão e guitarra, sem maiores pretensões, no ano 2000 e acabou formando algumas bandas com amigos. No universo do heavy metal, é comum que diversos grupos, quando não determinadas vertentes do gênero, trabalhem a fusão com o universo sinfônico. Por isso, foi natural o salto para as aulas de violino com uma vizinha, mesmo que ele não possuísse o instrumento.

Em uma visita ao projeto Suzuki Alto do Céu, o qual viria a revelar futuros professores da OCC (como Márcio Pereira, Karoline Lira, Jalvanez Guedes, Angélica Freitas, Wagner Salvino e outros que passaram pelo Coque e por Ipojuca), Ivanubis conheceu a viola de arco. “Até então, não existia nenhuma loja no Recife que vendesse esses tipos de instrumento, então eu peguei a lista telefônica e liguei para todas as que eu encontrava, até que achei uma que trazia de São Paulo, em 30 dias. Foi assim o meu primeiro contato com a viola”, conta.

Para aprender a ler partitura, o jovem músico do bairro recifense da Mangueira matriculou-se na Escola Municipal de Artes João Pernambuco, na Várzea, e no curso de extensão de Teoria Musical e Prática de Viola, na UFPE, com o professor Josildo Caetano, violista da Orquestra Sinfônica do Recife. Em casa, ia estudando os conteúdos mais avançados para pular de período e logo concluiu a parte teórica nos dois cursos; a prática de viola duraria dois anos.

Outros instrumentos de cordas, sejam dedilhadas, sejam friccionadas, encantaram Ivanubis: o bandolim, que tocou por quatro anos no bloco carnavalesco lírico Eu Quero é Mais, de Olinda; a bandola, com a qual atuava na orquestra Retratos do Nordeste; o violino elétrico, com o qual atua, desde 2014, na banda de pop rock Café Tinto e na de heavy metal Neros Benedictios. Além destes, Ivanubis usa o erhu (instrumento típico da China), a viola caipira, o baixolão, o piano elétrico e o violoncelo. “Mas só os utilizo para referência e estudo ou para gravações de pequenos arranjos”, explica.

O UNIVERSO DA COMPOSIÇÃO — Em 2007, Ivanubis teve contato com a Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano de Música. Ingressou nela no ano seguinte e permaneceu enquanto o grupo durou, até 2013. A vivência sinfônica acabou estimulando o violista a prestar o vestibular para a licenciatura em Música na UFPE, concluída em 2015 com uma passagem pelo grupo de câmara Sonoro Ofício, em 2012.

Na metade do curso, Ivanubis teve sua primeira peça, a Suíte norjazztina, para cordas, estreada pela OSJCPM e depois apresentada no I Festival internacional de Música Clássica de João Pessoa pelo quinteto de cordas Uirapuru. “A essa altura eu estava pensando em continuar meus estudos em Composição e visava a estudar em Portugal, mas não deu certo”, confessa, na longa entrevista concedida por e-mail à Revista Criança Cidadã.

A viagem ao exterior continua nos planos. Sua intenção é “ter um contato direto com outras culturas para captar as semelhanças e as diferenças no comportamento humano e como elas se traduzem nas artes”. Outro projeto é gravar um álbum de heavy metal sinfônico. Para isso, precisará “escrever as orquestrações e fazer uso de samples, já que obter recursos para gravar algo desse tamanho [com uma orquestra real] seria muito difícil. Ainda é uma ideia, não tem nada definido.”

O heavy metal influiu não apenas no desejo de Ivanubis tornar-se músico, mas também no de ser compositor. Ele cita em especial a banda Therion, da qual arranjou e gravou duas faixas para o tributo oficial ao grupo sueco, o álbum Blood of the dragon (disponível para compra online). “Fiz a primeira gravação sem a menor pretensão e postei nas redes sociais. Em pouco tempo, fiquei sabendo que Christofer Johnsson (líder fundador da banda) a ouviu e postou em sua página oficial… Em seguida pediu que um selo russo, responsável pelo tributo, entrasse em contato comigo para oferecer a participação…”, narra.

As peças eruditas de Ivanubis, por sua vez, começaram a ser gravadas aqui em Pernambuco. Primeiro, o Quarteto Encore, no CD Mosaicos (2016), lançou Quimiophantasia, em três movimentos: Labirintos do inconsciente, Valsa dos mortos e Andamentos a-temporais. Já em 2018, foi a vez de o Projeto Mucambo registrar Alvorada – ambas as partituras, para quarteto de cordas.

INQUIETAÇÕES — Perguntado sobre o que inquieta o seu âmago, o compositor recifense faz referência a Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da verdade”. “Minha arte não é um mero entretenimento. Ela é uma tentativa de releitura do que acontece com o ser ou de como ele reage perante o melhor e o pior acontecimento, ‘a vida’...”, declara. Quase sem exceções, suas peças possuem uma motivação extramusical, a exemplo de Natimorto, quarteto de cordas baseado em um soneto do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) sobre a perda de um filho. A poesia também é uma das atividades bissextas do músico, que lançou, em novembro de 2014, o livro PsicoPOIESISgrafia do inconsciente ciente, com 68 poemas.

CERVEJAS E VINHOS — Atualmente, o principal passatempo do compositor é produzir cerveja artesanal, uma forte tendência nos últimos dois anos, no Recife. “Especula-se que a cerveja é uma bebida tão antiga quanto ou até mais que o vinho, que, por sua vez, é uma bebida poética. E aquilo que envolve poesia, cultura e história costuma me chamar a atenção”, justifica, acrescentando um pensamento do filósofo francês Gilles Deleuze: “Beber, se drogar são atitudes sacrificiais. Oferece-se o corpo em sacrifício porque há algo forte demais, que não poderia suportar sem o álcool.”

Para Ivanubis, a motivação de criar as próprias cervejas vem da experiência sensorial — visual, olfativa, gustativa e textural — e do estudo cultural que cada estilo proporciona, “sem mencionar que, se a pessoa não possui restrições aos ingredientes, a bebida pode trazer benefícios a sua saúde, caso ingerida de forma moderada”, frisa.

Os estilos que fabrica para o selo que criou, o Heterônimo, e que vende sob encomenda são: American IPA (rotulado de Senciência) com adição de cascas de laranja e tangerina; Irish Red Ale (Zaratustra); Weiss Bier (Femini Generis); Belgian Pale Ale (Adagietto) com adição de tamarindo, e American Coffee Stout (Neros Benedictios), com café orgânico 100% arábica.

“A próxima experiência que farei é a mistura de dois estilos tradicionais alemães, Weizen (trigo) e Gose (que leva sal do Himalaia), com adição de algo mais a minha escolha. No momento também estou com um protótipo de vinho de laranja, o qual devo aperfeiçoar”, antecipa.

Confira outras edições