Revista Criança Cidadã - Matérias

O sangue que corre nas veias musicais

Edição 26 - Maio/Agosto 2018

Unidos no sangue e na vocação para a música. Essa é a realidade de muitos familiares nos núcleos do Coque e do Ipojuca. Em ambas as unidades da Orquestra Criança Cidadã, é comum a presença de dezenas de primos e irmãos. Olhando especificamente para o último laço afetivo, eram 50 alunos dos 360 matriculados no projeto no início de 2018. Haveria uma genética musical? Brincadeiras à parte, o fato é que alguns até provêm de famílias que vivenciam a música com frequência, em aniversários e outras datas especiais. Mas há também aqueles que simplesmente iniciaram sua relação com a área musical quando entraram na OCC. A Revista Criança Cidadã conversou com alguns deles e os relatos são interessantes.

Sintonia. É a palavra que melhor define a relação entre o contrabaixista Jhórsily Átila, 17, e a irmã Júlia Átila, 15, que tocava violoncelo até o começo deste ano. Mesmo de instrumentos diferentes, sempre se apoiaram nos estudos e nos planos familiares. Comprar um terreno de 12 hectares, por exemplo, que segundo a justificativa bem-humorada de ambos, eliminaria as reclamações da genitora sobre o pequeno espaço compartilhado pela família atualmente. A realidade é que ambos querem dar um futuro melhor para a mãe batalhadora. “Ela nos apoia demais, sempre pede para estudarmos, chama-nos para tocar”, explica Júlia. Quanto ao estilo de música, ele prefere o romântico; ela, o barroco. “Gosto mesmo é de solar, apesar das dificuldades no instrumento”, entrega Jhorsily, que nas apresentações públicas é conhecido pela alegria com que toca, e arrisca até algumas coreografias abraçado ao contrabaixo, quando o repertório é regional.

Sobre o relacionamento estabelecido pelos irmãos da Orquestra, a psicóloga Flávia Félix percebe que, na maioria dos casos, é muito próximo. “Até os de instrumentos diferentes têm um laço muito forte; a música os aproxima ainda mais”, conta. A profissional destaca ainda que a família que tem mais de um filho no projeto tende a ser mais participativa nas questões relativas à Orquestra: “Isso faz toda a diferença”.

Essa proximidade destacada por Flávia é percebida entre as gêmeas do Coque, Raiane e Raíssa da Silva, 14, que estão na OCC há dois anos. Dos dois aos seis anos de vida, as irmãs precisaram ser cuidadas por pessoas diferentes. Mesmo com a separação temporal, afirmam que se conhecem muito bem. “Contamos segredos uma para a outra”, diz a violoncelista Raíssa. Já quanto à aparência física, ela dispara: “Não nos parecemos em nada, nem no cabelo”. A percussionista Raiane acha que elas têm os mesmos trejeitos, mas que os planos diferem. “Temos gostos diferentes em roupa, na música... Eu quero ser baterista; ela, modelo”, enumera. Raíssa tem, ainda, um sonho: tocar com a irmã em alguma apresentação pública. “Em qualquer lugar com ela, pois sei que vai ser diferente”, imagina.

Do mesmo naipe, Thierry, 19, e Vinícius dos Santos, 18, vivem o universo da percussão tanto na Orquestra quanto em casa. O mais velho é monitor no Núcleo do Coque e tenta auxiliar o irmão no que pode. “Ajudo a todos, só que termino o ajudando ainda mais, pois moramos juntos”, explica Thierry, que comprou uma marimba com Vinícius para facilitar os estudos em casa. Na personalidade, define-se como mais brincalhão e seu jeito é elogiado pelo irmão. “Gosto do jeito sincero dele. Todo irmão briga, mas somos bem unidos”, diz Vinícius, que sonha poder tocar numa orquestra profissional ou banda sinfônica.

Os irmãos Andrade são os veteranos no violoncelo e no projeto. Davi, 19, entrou para a Orquestra do Coque há 11 anos; Diógenes, 23, já contabiliza 10, e é monitor no Ipojuca há quatro. Em mais de uma década aprendendo música na OCC, ambos compartilharam inúmeros momentos essenciais para a sua formação musical. Davi destaca as viagens: “Cada viagem é uma conquista dos dois; dividimos quarto, conversamos e comemoramos a oportunidade”. Perguntado sobre um ponto em comum com o irmão, ele cita a forma de se expressarem através da música.

Diógenes concorda e complementa que o fato de serem de uma família musical também pesou para que trilhassem caminhos parecidos. “Acredito que foi estratégico da nossa mãe em nos colocar aqui; ela tem muito orgulho do que fazemos”, relaciona. O ambiente vivenciado na Orquestra é realmente acolhedor, segundo ele: “Além de ser nossa segunda casa e ter nossos familiares aqui, podemos considerar os outros como irmãos de música”. Irmãos de sangue, irmãos de naipe, irmãos do projeto. A marca é uma só: o companheirismo.

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