Revista Criança Cidadã - Matérias

A personificação de três saberes: Música, Jornalismo e Geografia

Edição 26 - Maio/Agosto 2018

Do alto do Edifício Tiradentes, na Av. Dantas Barreto, no centro do Recife, o saxofonista Edson Rodrigues ouviu uma voz que mudou sua trajetória. “Eu trabalhava como servente de pedreiro lá, o pessoal do Sindicato dos Músicos Profissionais do Recife soube e foi me chamar para voltar para a Banda Sinfônica do Recife”, contou, em entrevista exclusiva concedida no Museu Paço do Frevo, para a Revista Criança Cidadã.

Em 1964, com 22 anos de idade, o músico já havia dado os primeiros passos na carreira musical. Dez anos antes, quando entrou na Escola Técnica Estadual Professor Agamenon Magalhães (Etepam), para cursar Artes Gráficas, Edson iniciou também os estudos na banda musical do colégio. Em 1957, o músico desfilou pela primeira vez no carnaval: “Eu tinha 15 anos e, naquele momento, um mundo novo apareceu para mim. No ano seguinte, Ademir Araújo (Maestro Formiga) e eu já fazíamos parte da Banda Municipal do Recife, que hoje é Banda Sinfônica.”

Em 1958, Edson realizou o concurso para a Banda e uma palavra o marcou para sempre. “Eu lembro que nos foi dito que aquela vaga era ‘condicional’, então, eu pensei: ‘Se vier alguém melhor do que eu, eu tô fora’. Foi naquele instante que resolvi estudar muito e dar o melhor de mim, para que pudesse permanecer na Banda que, naquele época, se apresentava em praças, escolas públicas, na câmara dos vereadores”, detalha.

Entretanto, o maestro relata que a Banda realizava as apresentações, mas demorava muito para receber, o que resultou em seu afastamento por dois anos, fazendo com que ele precisasse trabalhar como servente de pedreiro, ofício que aprendeu com seu pai, pedreiro, e o levou ao alto do Edifício Tiradentes.

No período em que esteve afastado da Banda, começou a trabalhar numa gráfica, onde tentou aplicar o que foi aprendido na Etepam, mas não levou muito jeito. Por semana, o maestro recebia 120 cruzeiros. Logo após seu retorno à Banda, comentaram que estavam precisando de músicos no Café Lafaiete, no centro.

“Eu fui lá e me encontrei com Clodoaldo, baterista. Ele me disse que poderia me pagar 300 cruzeiros por uma apresentação no Clube Madeira do Rosarinho. Para quem ganhava 120 numa semana, aquele foi o momento onde eu percebi que poderia viver de música”, relembrou. Nessa época o saxofonista ainda tocava na Boate Samburá, junto com o pianista Zé Gomes e o baterista Geraldo Santos.

COMPOSIÇÕES FAMOSAS — O processo de criação de Edson Rodrigues varia. “Normalmente, vem o desejo de escrever. Mas se eu parar e sentar também consigo compor, porque com o tempo a gente vai dominando as técnicas”, explica. Outro recurso que também ajuda o seu momento criativo é andar sempre com um caderno com papel de música. Essa dica ele aprendeu no livro Como ouvir e entender música, de Aaron Copland.

No caso de Duas épocas (1965), eleito o melhor frevo de rua de 1966, o compositor resolveu homenagear os carnavais de sua avó na primeira parte da música. No segundo trecho, ele se utilizou de notas mais altas, comuns ao frevo de rua, que representava o carnaval de sua juventude. “A primeira parte você pode observar que é uma melodia singela, uma canção para seresta, e depois vem um frevo mais pra cima”, explica.

Roda e avisa (1988), sucesso conhecido na voz de Alceu Valença, veio num momento em que Edson ouvia o rádio, assistia ao programa do Chacrinha e compunha a música. “Eu gostava muito do programa dele e sempre pensei que seria um baque muito grande quando ele morresse, então, resolvi escrever. A primeira parte eu fiz e pedi que a segunda Jota Michiles completasse”, relatou.

JORNALISMO, GEOGRAFIA E MÚSICA — “Eu sempre gostei muito de escrever, de ouvir notícia, por isso resolvi fazer Jornalismo e até hoje isso me ajuda, porque posso escrever qualquer coisa. Atualmente, escrevo crônicas semanais para a Rádio Clube AM e também tô tentando escrever minha biografia”, conta. Edson decidiu cursar Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) pelo gosto pela escrita. Sua turma começou em 1975; entre os colegas, José Pimentel (1934-2018), ator que interpretou Jesus Cristo por mais de 40 anos.

Dez anos depois, o jornalista acabou fazendo Geografia, também na Unicap. Ele já dava aula de Música na Escola Pedro Celso, por ser Bacharel pelo Conservatório Pernambucano de Música, mas ainda não tinha Licenciatura. “Acabei fazendo Geografia também, mas dei aula só no período de estágio mesmo”, diz.
Em 1994, o professor entrou como portador de diploma no curso de Música da Universidade Federal de Pernambuco, onde depois se especializou na área de Etnomusicologia. “Estudei como a música funciona dentro das culturas. Penso que pode ter a ver com o fato também de eu sempre ter gostado mais da Geografia Humana, focada nas sociedades”, reflete, quando questionado sobre a relação entre suas escolhas acadêmicas. Edson cogita se aprofundar nessa área de estudo em Portugal.

Atualmente, o músico é aposentado da Prefeitura do Recife, como regente da Banda Sinfônica da Cidade do Recife, e também do Estado. Às quartas, ele se apresenta em um bar de luxo da cidade com a Contrabanda, onde toca jazz com Fernando Rangel (contrabaixo acústico), Nilton Rangel (guitarra) e o baterista Enoque Souza, professor da Orquestra Criança Cidadã.

“Eu comentei que estava trabalhando na OCC e ele disse: ‘Ah, vou escrever alguma coisa pros seus meninos’. Ele chegou depois com Temas nordestinos, uma mistura de gêneros da nossa região, como valsa e o baião, inspirada em sons que ele escuta pela rua, em feiras. Ele é uma pessoa que compõe com facilidade. De vez em quando, ele chega com alguma partitura nova, recém-escrita e a gente toca com a Contrabanda”, conta Enoque, que admira o maestro pela alma jovem, pelo repertório “absurdamente vasto” e pelo incessante interesse em aprender.

PROVA DE GRATIDÃO — No tempo em que foi professor de saxofone no Conservatório, ensinar a ser um bom instrumentista não era suficiente. “Eu sempre dizia aos meus alunos que, além de serem bons músicos, eles precisavam ser bons homens. Um aluno que sempre demonstrou esse reconhecimento foi o Maestro Spok. Ele dizia que eu sou como um pai pra ele. Quando eu precisei vender meu sax tenor para resolver problemas pessoais, ele me fez uma surpresa e me comprou um sax. Eu agradeci e ele disse que eu já tinha feito muito mais por ele. Aquilo pra mim foi uma prova de gratidão”, relembrou emocionado. Atualmente, o maestro tem quatro saxes: dois altos, um soprano e um tenor.

Para o compositor, a arte é essencial para o bem-estar do ser humano. “Em 2010, foi determinado que era obrigatório que as escolas oferecessem aulas de Música, mas até hoje não aconteceu”, comenta. A esse descumprimento da lei, o músico atribui uma certa “ignorância musical” por parte das pessoas, que faz com elas consumam músicas passageiras e que agridem a imagem da mulher.

Soma-se a isso a falta de compromisso das políticas na cultura. No carnaval deste ano, o maestro se apresentou na Praça do Arsenal e na Praça da Independência, mas a mesma dificuldade que ele tinha em receber o salário na década de 1950 persiste: “As pessoas estão preocupadas com politicar. Falta uma pessoa de boa formação para comandar as secretarias de cultura e pensar políticas que funcionem. Por exemplo, a gente toca no carnaval e só vai receber em julho”, afirma.
Edson Rodrigues sintetiza a importância da arte com uma frase que ouviu em algum lugar, mas que nunca esqueceu: “A arte é o verniz da alma” e, para ele, tem sido assim há mais de 60 anos.

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