Revista Criança Cidadã - Matérias

Uma ponte fraternal e musical

Edição 26 - Maio/Agosto 2018

Depois de Kassel (Alemanha, 2013), Vaticano e Lisboa (2014), Roma (2015), Nova Iorque (2016) e Roma, de novo (2017), a Orquestra Criança Cidadã realizou mais uma viagem internacional, desta vez para Buenos Aires. Entre os dias 7 e 12 de julho, na capital argentina, a OCC realizou três concertos bastante prestigiados: na Catedral Metropolitana, no encontro anual da Renovação Carismática Católica e na Sinagoga da Congregação Israelita Argentina.

O convite para a viagem veio do vice-presidente mundial da Fraternidade Católica das Comunidades e Associações Carismáticas de Aliança (CF), Pino Scafuro, também coordenador da Renovação Carismática Católica em Buenos Aires. Pino conheceu a sede da OCC em 2014 e obteve a agenda para a memorável visita da Orquestra ao Papa Francisco, naquele mesmo ano. Desta vez, Pino abriu espaço para nossa presença no encontro anual da Renovação Carismática Católica (RCC) Argentina.

Sob o tema “A inspiração pode mudar o mundo”, o encontro da RCC teve lugar no Luna Park Stadium, durante a manhã e a tarde de 9 de julho, Dia da Independência Argentina. Mesmo tratando-se de um evento ligado a um movimento leigo católico, e com grande maioria de convidados clérigos e missionários, a proposta do encontro era ecumênica e a OCC foi lembrada por carregar consigo uma mensagem permanente de transformação social por meio da música.

O idealizador e coordenador geral da orquestra, João Targino, e a presidente da Associação Beneficente Criança Cidadã, Myrna Targino, não puderam chefiar a comitiva, em virtude de compromissos pessoais coincidentes. A tarefa coube ao gerente administrativo do Núcleo do Coque, Edivaldo Cavalcanti, auxiliado pela professora de violino da OCC Rafaela Fonsêca, como produtora ad hoc, e pelo assistente Gilvan Celestino.

A CATEDRAL — Por sua vez, Pino tomou a iniciativa de articular os outros dois concertos que a orquestra realizou em solo portenho: na Catedral Metropolitana e na Sinagoga. No dia 8 de julho, por intermédio do Padre Alejandro Russo, reitor de música da catedral, a OCC tocou quatro números musicais ao longo da missa das 11h30, dividindo a participação com um coro acompanhado por órgão: Ária da corda sol, de Bach (entrada); Jesus alegria dos homens, também de Bach (ofertório); Panis angelicus, de César Franck (comunhão), e o segundo movimento do Inverno de Vivaldi (saída).

Às 12h30, após a missa, a OCC realizou um concerto dirigido ao público, que recebeu bastantes aplausos de turistas e fiéis, incluindo diversos brasileiros. O repertório constou do primeiro movimento do Concerto de Brandemburgo n° 3, de Bach, do primeiro e quarto movimentos da Suíte São Paulo, de Gustav Holst, da estreia latino-americana de Chahargah, do iraniano Mehran Badakhshan, e do Mourão, de Guerra-Peixe (orquestrado por Clóvis Pereira).

O LUNA PARK — No dia seguinte, feriado nacional na Argentina, a Orquestra Criança Cidadã subiu ao palco do Luna Park Stadium, mais emblemático espaço de eventos do país, que já abrigou acontecimentos tão diversos quanto lutas de boxe, mundiais de vôlei e basquete, além do casamento de Diego Maradona e do velório de Carlos Gardel.
A participação da OCC teve início pouco depois das 16h30. Em roteiro intercalado por músicas, Pino Scafuro contou sua história desde o momento em que foi levado a conhecer a sede da orquestra — pelo amigo Gilberto Barbosa, da comunidade católica Obra de Maria — até o instante em que tocamos para o sumo pontífice em Roma, há quatro anos.

“Ao longo de todo o dia, um Luna Park lotado assistiu a notáveis exemplos de pessoas que viram uma necessidade, receberam uma inspiração para resolvê-la e mudaram a realidade. João Targino, homem da Justiça, percebeu uma injustiça. Deus o inspirou, João creu nessa inspiração e, assim, a realidade de muitas crianças mudou e o mundo foi um pouco mais justo”, rememora Pino. “Essas crianças descobriram que podiam sonhar e, mais tarde, que seus sonhos podiam tornar-se realidade”, acrescenta.

OS DEPOIMENTOS — Antes da fala de Pino, a OCC apresentou, como cartão de visitas, Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Por una cabeza, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, veio à baila no momento em que Pino relembrou a mesma música tocada para ele à guisa de recepção, em 2014. Por fim, Jesus alegria dos homens e Vive Jesus, o Senhor fizeram alusão, respectivamente, ao compositor (Bach) e ao cântico católico preferidos do Papa Francisco.

Por fim, o violinista Filipe Reis e a violista Rebeka Muniz, alunos da OCC desde a inauguração do projeto, em julho de 2006, foram chamados por Pino para falar perante a multidão presente sobre a inspiração que a música despertou em suas vidas por meio da oportunidade de integrar o projeto.

Ex-professora da ABCC (hoje, na OCC), Rebeka resume a experiência de ter discursado pela primeira vez para uma plateia tão ampla: “Foi incrível. Eu nunca tinha falado para tantas pessoas. Foi um sentimento de realização e de surpresa, porque eu não sabia que eu ficaria tão tranquila diante de tantas pessoas. E foi uma honra estar ali, diante de tanta gente, contando o que eu vivi e, através da minha história, inspirando outras pessoas, que talvez possam estar na mesma situação que eu, antes de conhecer a orquestra.”

O CONCERTO PELA PAZ — O último dia de música em Buenos Aires, 10 de julho, uma terça, foi marcado pelo concerto de mais alto nível artístico da viagem, na Sinagoga da Congregação Israelita Argentina, localizada na praça Lavalle. Pela concepção do concerto, o programa constava de três obras estrategicamente selecionadas: uma de compositor judeu, outra, de cristão, e a última, de muçulmano.

Assim, foram tocadas a Suíte Israel, do recifense Benny Wolkoff (1921-1995), o Inverno, das Quatro estações do padre Antonio Vivaldi — tendo como solista Thiago Formiga, um dos professores de violino da OCC —, e Sacrifice of brothers (Sacrifício de irmãos), do iraniano Sepehr Pirasteh — em estreia mundial na versão original, para cordas. Aplaudida de pé, a Orquestra Criança Cidadã deu três bises de agradecimento: Mourão, Por una cabeza e Lamento sertanejo, de Dominguinhos.
A REPERCUSSÃO — A Sra. Liliana Reynoso, na página “Conciertos en Libertad”, no Facebook, que realizou a transmissão ao vivo do Concerto pela Paz, declarou-se entusiasmada com a performance da OCC: “Parabéns pela paixão que transmitiram. Brindaram-nos com amor e os escutei com o coração. A pele se eriça e a alma se regozija. Que os êxitos continuem!!!”

Entre os presentes ao concerto, estava o ministro de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Argentina, Sergio Bergman — também rabino do Templo Libertad (nome oficial da sinagoga), fundador da Fundação Judaica e fundador e presidente da Fundação Argentina Cidadã. Bergman recebeu um kit com álbuns e revistas da OCC; outro kit foi direcionado ao rabino Abraham Skorka, amigo pessoal do Papa Francisco e que não pôde comparecer à apresentação.

A AVALIAÇÃO — O maestro Nilson Galvão Jr. classifica muito positivamente a viagem, nos quesitos artístico e educativo. “No ponto de vista artístico, essa oportunidade serviu para o aprimoramento da qualidade do grupo, tendo servido de estímulo para o ‘algo a mais’ — aquela afinação que faltava, a dinâmica que poderia ter mais contraste, a qualidade de som mais refinada que estava faltando... Foi possível exigir mais dos(as) meninos(as) em relação a postura e atitude em cima do palco. E eles foram muito bem!”, elogia o regente.

“Sobre o aspecto educativo, temos agora uma grande oportunidade de em primeiro plano colocar as músicas brasileiras (clássicas e regionais) em paridade com outras obras. Em segundo plano, é termos uma conversa aberta sobre aquilo que funcionou, tanto na preparação como nos concertos propriamente ditos, bem como sobre as coisas que poderiam ter sido feitas de outra forma. Acredito que as respostas a esses questionamentos farão com que os alunos tenham uma educação mais sólida no que diz respeito à preparação de concertos e turnês”, conclui.

Já Pino Scafuro, que também integra o Departamento de Leigos da Conferência Episcopal Argentina, conta que “além da excelência musical, reconhecida por membros do Mozarteum Argentino, e de termos vivido com alegria a amizade experimentada naqueles dias com os integrantes da orquestra, o evento [do Luna Park] teve muitas repercussões, no geral, e a experiência da Orquestra também, particular.”

AS VISITAS — Foram poucas, mas muito bem aproveitadas, as horas livres na capital argentina. Os pontos turísticos obrigatórios não deixaram de ser visitados e bastante fotografados pelos alunos: a Floralis Generica; a estátua da Mafalda, em San Telmo; a Praça Lavalle; o Centro Cultural Recoleta; o Obelisco, na avenida 9 de Julho; a Praça de Maio e a Casa Rosada; e o Caminito, na Boca, por duas vezes (eleito o melhor lugar para compras de lembranças de viagem).

Mas a OCC ainda aproveitou para cumprir uma agenda de cunho cultural e institucional. No dia 10, pela manhã, conhecemos o Teatro Colón, a mais célebre casa de ópera e balé da América Latina, conduzidos por uma das guias oficiais do teatro, Lucía Ossoinak. A visita, acertada pela OCC, teve entrada gratuita por cortesia da direção do Colón. Já no dia 11 à tarde, visitamos o Congresso da Nação Argentina, ladeados pela secretária executiva Rosa di Lorenzo e pela deputada Ana María Llanos Massa.

ANFITRIÕES E AMIGOS — João Targino, idealizador da OCC, faz um balanço da passagem da orquestra em solo argentino: “Avalio a viagem à Argentina como extremamente positiva: mais um país em que a orquestra pôde mostrar o seu talento, a sua arte, e esperamos que, com essa visita e os concertos realizados, novas perspectivas se abram no sentido de que façamos intercâmbios, ocorram novos concertos, enfim, que se formem laços estreitos entre a OCC e projetos e instituições argentinos.”

Pino Scafuro retribui: “Muitos perguntam quando voltarão e oferecem ajuda para que isso seja possível. Esperamos que tenham sido tão felizes aqui como fomos com vocês. Agora estamos atentos ao que a comunidade nos pedirá a partir deste encontro. Talvez a volta da Orquestra para outras funções e, sobretudo, compartilhar experiências com outras iniciativas musicais similares, contudo mais modestas, da Argentina.”

Mais do que o lado musical e institucional, a viagem da Orquestra Criança Cidadã à Argentina ficará eternamente marcada pela amabilidade do povo portenho, especialmente da equipe que nos recepcionou e não mediu esforços para atender à delegação da orquestra em tudo o que fosse necessário.

Além de Pino Scafuro, devem ser listados aqui: Ana María Wastian, Rosa di Lorenzo, Luis Danderfler, Pablo Barboni, Daniel Caracciolo e o casal Silvia e Javier Tagle, que nos acompanhou nos seis dias em que ficamos alojados no Instituto Garrigós, no bairro de La Paternal, dirigido por Daniel Rolón e Eduardo Falcón, coordenador e assessor do instituto, respectivamente.

O Instituto Garrigós, antigo orfanato de meninas, depois transformado em centro de atendimento socioeducativo para menores, hoje abriga um centro de assistência social com ambulatórios, cursos profissionalizantes e alojamentos alugáveis, administrado pelo governo federal argentino. Em um dos momentos de lazer no local, os meninos da OCC desafiaram uma equipe de jovens de uma comunidade próxima. O placar, não vamos dizer, em nome da diplomacia (risos).

COMPOSITORES IRANIANOS
Ao idealizar o Concerto pela Paz, no Templo Libertad, Pino Scafuro acabou confiando uma missão de importância para a OCC: possuíamos partituras de compositores cristãos e judeus em nosso acervo, mas não de muçulmanos. Então, após contato com o compositor norte-americano George Gianopoulos, fomos apresentados via e-mail ao diretor da Associação de Compositores Iranianos Contemporâneos, Amin Sharifi.

Sharifi abriu uma chamada para partituras entre os integrantes da associação, e o maestro Nilson Galvão Jr. selecionou duas para as apresentações na Argentina: Sacrifice of brothers, de Seperh Pirasteh (1993), e Chahargah, de Mehran Badakhshan (1994) — depois estreadas no Brasil, no concerto de aniversário de 12 anos da OCC, dia 29 de julho passado.

“Chahargah, para orquestra de cordas, foi originalmente escrita para quarteto de cordas em dezembro de 2016 e é, em sua maior parte, baseada em dois dos principais modos da música tradicional e folclórica iraniana: chahrgh e shùr. A peça começa com uma caprichosa introdução em chahrgh e segue com o tema principal na parte do adagio. A segunda parte da obra, quase toda escrita em shùr, em andamento vivace, é uma lembrança de uma técnica rítmica da música tradicional iraniana, chamada chahr-mezrrb”, explica Badakhshan.

Pirasteh fala sobre Sacrifice of brothers: “Ela é baseada em uma velha canção do começo da Revolução Iraniana [de 1979], escrita por M. R. Lotfi e cantada por M. R. Shajarian. O assunto dessa canção é sobre pessoas que se sacrificam pela causa da liberdade. Depois da introdução, o primeiro tema é influenciado pela música folclórica persa e mostra toda a comoção e as tensões na sociedade. O segundo tema, baseado na citada canção, exibe o sofrimento e as dramáticas cenas da conquista da liberdade.”

Ainda neste semestre, a OCC estreará em âmbito nacional e latino-americano, no Recife, outras duas partituras avaliadas pelo maestro Nilson Galvão: Kourdish, de Ahmad Reza R. Mohseni, e Shah’zama de Mil contos de Achaemenid, de Mohsen Kuschkie.

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