Revista Criança Cidadã - Matérias

Memorial ao maestro Cussy de Almeida

Edição 03 - Agosto/Setembro 2010

João Targino // Juiz de Direito e coordenador geral da Orquestra Criança Cidadã

É muito difícil, quase impossível nesta hora de luto para a Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque, traçar algumas considerações sobre o ilustre e quase insubstituível maestro Cussy de Almeida, conhecedor profundo dos mestres clássicos. Nestes quatro anos de ensinamentos quase ortodoxos, onde a disciplina e o aprendizado se confundiam, foi uma honra e um privilégio para estas crianças serem educadas pelo internacional maestro. Isso não tem preço. Como não tem preço uma sonata de Mozart, os quartetos de Beethoven ou as grandes sinfonias de Brahms.

Diante da figura imponente do grande mestre, exornado dos mais peregrinos dotes de capacidade musical, todos se curvavam. Era um líder nato. Para ele, não havia obstáculos, muito menos empecilhos quando se tratava de elevar o nome da orquestra e o conhecimento musical dos alunos. Ele era o próprio espetáculo. Intenso em todas as suas emoções. Da alegria estampada na face pela ida do spalla da Orquestra para Varsóvia à tristeza porque outro não conseguira o mesmo feito. Impunha castigos, ao mesmo tempo em que demonstrava gestos de ternura.

Era o contraditório maestro possuidor de raros dotes de combatividade. Essa sua personalidade marcante fará com que sejamos fiéis à sua memória. Os seus exemplos irão continuar a ser nossa bússola na luta pelo bem-estar da orquestra. Onde estiver, querido mestre, pode ter certeza que seremos seus continuadores da luta por esse ideal. O tempo, que tudo embota, não conseguirá apagar a saudade que habita no coração destas crianças e no de todos nós. Continuaremos cultivando a música que é o que de mais nobre existe no nosso espírito.

O ÚLTIMO TRIBUTO AO MAESTRO CUSSY DE ALMEIDA

Graça Salles // Advogada e voluntária da Orquestra Criança Cidadã

Pelo lapso temporal de quatro anos da Orquestra Criança Cidadã, presenciei os mais emocionantes concertos regados a fortes emoções em teatros suntuosos, de palcos e cenários deslumbrantes. MAS NENHUM foi tão comovente quanto o que testemunhei diante do corpo inerte do talentoso e glamoroso maestro Cussy de Almeida. Em volta do esquife, os meninos do Coque deram o melhor de si. Eles estavam muito mais preocupados com notas de afeto e acordes de gratidão, do que mesmo com as partituras. Sabiam que o mestre já não poderia corrigir nenhum deslize musical Tinham sido preparados durante 4 anos por aquele que ali permanecia imóvel. Teriam que provar ao próprio mestre nessa despedida que a luta incansável não foi em vão. E ai, diante da adversidade dessa perda tão grande, para quem teve tão pouco da vida como eles, se superaram. Tocaram tão sublimemente que pareciam querubins enviados do céu. Talvez enquanto seguravam os instrumentos musicais perpassasse por suas mentes porque mais um pai lhe era tirado, naquele momento em que ainda precisavam tanto de seus ensinamentos. Com certeza, em sua percepção estão sem entender os desígnios de Deus. A face transtornada de cada um deles, as lágrimas sinceras que não estancavam de suas faces, comoveram não só a mim, mas a todos os presentes. Foi a cerimônia mais enternecedora que presenciei nos últimos tempos. Não pelo sepultamento em si, mas pela história de um ser humano que foi enviado por Deus àquele projeto com a intenção de que construíssem sonhos. O maestro arrebatou os meninos do Coque a sonhos e lugares inimagináveis. A história da Orquestra nunca mais será a mesma. Pode repousar em paz, maestro, que seus meninos ficarão entregues aos dois outros excelentes pais, o desembargador Nildo Nery e o juiz João Targino. Deus, na sua infinita sabedoria, determinou 3 pais para as crianças quase órfãs, sabendo que eles não poderiam perde-los ao mesmo tempo ao longo da vida. Internacional maestro Cussy de Almeida, ficamos tristes e com saudades, mas tenha a certeza de que sua obra não se calará e muitas vidas serão transformadas.

EU VI, OUVI E SENTI

Reinaldo de Oliveira // Membro da Academia Pernambucana de Letras e dos Conselhos de Cultura do Estado e do Município

Eu vi, ouvi e senti a Missa de Sétimo dia de Cussy de Almeida. Foi na Igreja do Colégio Salesiano, repleta de amigos. Eu vi seus filhos da primeira mulher, Nelly, Henrique, Isabela Corintha, Maria Gabriela e Waldemar, ainda descrentes da realidade maldita, com as faces úmidas. Eu vi Suzana, a esposa com quem foi feliz na última metade de seus anos, abraçada a Nathália, a caçula. Eu vi o desembargador Nildo Nery com os olhos turvos de lágrimas. Vi a irmã Ana Corintha, que veio dos Estados Unidos para acreditar na tragédia. Vi a Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque, calada, muda, chorando.

Eu vi as lágrimas de Waldenio Porto, presidente da Academia Pernambucana de Letras, esquecido daquele dia, que era de sua alegria íntima por ser seu aniversário. Eu vi as lágrimas da jovem violoncelista Bianca de Cássia correndo cordas abaixo, emprestando uma sonoridade úmida jamais ouvida. Eu vi D. Fernando Saburido, Arcebispo de Olinda e Recife, oficiando a missa e distribuindo centenas de hóstias consagradas aos fiéis amigos de Cussy. Eu vi choros contidos e liberados, carimbando o sentimento da perda irreparável.

Eu ouvi a Orquestra dos Meninos do Coque, que aprenderam as lições do mestre e maestro Cussy, com apenas uma facção dos que dispunham de energias para tocar o repertório escolhido, sob a batuta da maestrina Aline Ananias de Lima. Eu ouvi o início da missa com a execução da música de Cussy “Cipó Branco de Macaparana”. Eu ouvi as “Czardas”, de Monti, música preferida dele, num solo magistral que eu vi de um violinista mirim, João Pedro.

Eu vi e ouvi o arranjo feito pelo Cussy de “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro, tocado pelo jovem Júlio Carlos, egresso da Polônia, detentor de bolsa de estudos, ora renovada, para aprimoramento técnico.

O momento máximo artístico da solenidade foi a execução de “My Way”, em que a criança violinista Thialyson Phillipe interpretou em solo ao longo do corredor da Igreja, acompanhado, maravilhosamente, pela Orquestra, indiferente ao pranto de seus componentes.

Sentado, ao fundo do altar, D. Fernando parecia elevar as suas preces para cada músico, como a reforçar a ideia inicial do desembargador Nildo Nery e do Juiz João Targino tornada realidade pela determinação e pelo ânimo de Cussy de Almeida.

Eu senti, no semblante das fisionomias, a dor de cada alma ali presente. Eu senti as palavras do juiz João Targino, emocionado. Eu senti o sofrimento de Clovis Almeida, irmão de Cussy, ao dar seu depoimento, úmido, sobre o irmão. Senti as palavras doces de Nathália, sua caçula, dominando a plateia que, tantas vezes, o pai dominou.

Eu vi, ouvi e senti Geninha da Rosa Borges declamando a poesia de Cecília Meirelles, “No último andar”, em que se sentiu a presença dele em nuvem distante.

Foi uma noite linda, digna da memória de Cussy.

E me vi, ouvi e senti... chorando.

O ÚLTIMO CONCERTO DE CUSSY

Waldenio Porto // Presidente da Academia Pernambucana de Letras

Não havia velário. Cussy estava ali, imóvel, em campo aberto, como se descansando antes de começar a função. O velário era a tristeza expressa em todos os semblantes. O tempo nublado atravessava os vidros das janelas e, quieto, vinha trazer a luz amortecida do pesar. Chovia lá fora. E seu ruído nas janelas e no chão percutia em surdina, trazendo, para dentro da sala, a música dolente do inverno que feria o silêncio consternado. A chuva chegava também aos olhos rasos d’água e nublava a visão da cena. Uma quietação de igreja se acamava na câmara ardente. Os círios se extinguiam e acompanhavam os minutos finais daquela tarde esmorecida. Então, chegam os Meninos do Coque com seus instrumentos. Esgueiram-se de uma porta lateral, portando violinos, sustentando violoncelos e baixos, sem arrastá-los, no cuidado respeitoso para não perturbarem o sossego ambiente. Faces sérias, vão se postando ao lado de Cussy e arrumam a Orquestra. Ficam quietos na ansiedade costumeira de iniciarem a apresentação. Observam de pé os outros colegas que tomam assento no auditório. Viro-me para trás e vejo a pequenina Stephany, que me encantou outro dia, e a chamei Flor de Lotus no livro Violinos no Coque. Agora, lacrimosa, junto de Daniel, experimenta o sentimento geral de orfandade. De repente, após a chegada e fala do juiz João Targino, a Orquestra começa a tocar, estranhamente, sem ninguém na frente para regê-la. Todos sentem, então, a presença de Cussy de Almeida, com seu boné imaculadamente branco, na cadeira de rodas, o cateter no nariz e o torpedo de oxigênio de lado, a batuta na mão, se emocionando e enternecendo a plateia inteira.

Adianta-se Thialyson Phillipe e inicia o concerto com “My way” (Meu Caminho), uma das canções preferidas do maestro e que tem tudo a ver com o instante que presenciamos. As cordas do violino contam, naquele momento derradeiro, em harmonias saudosas, as lembranças de toda a vida de Cussy de Almeida. Depois do solo inicial, toda a Orquestra entra de vez, e dá para se ver a mão levantada do regente dirigindo a partitura, como se acenando para os seus Meninos e Meninas do Coque, num gesto final, se despedindo. A chuva que cai lá fora então escorre pelas suas faces e marca o momento da separação.

O violino, que toca “My way”, relembra, também para mim, uma manhã quando Cussy de Almeida me procurou na Academia Pernambucana de Letras. Logo estava ensaiando ali os alunos de sua Orquestra do Alto do Céu e, depois, o Grupo Orange. O violino de “My way” me recordou também o concerto no Santa Isabel e o lançamento de um CD do Grupo Orange, no qual Cussy me faz uma dedicatória preciosa.

O maestro compareceu à Camara Municipal do Recife, com Orquestra, quando recebi o Título de Cidadão do Recife. São coisas para não serem esquecidas. A feliz e rica oportunidade de conviver com Cussy, ao escrever Violinos no Coque, a convite do desembargador Nildo Nery. Tudo isso me lembrou o violino tocando “My way”, na tarde ensombrecida de sábado.

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