Revista Criança Cidadã - Matérias

Cussy de Almeida: ...e o Show continua

Edição 03 - Agosto/Setembro 2010

A estrela do homem que dedicou a vida à música e à solidariedade permanece brilhando

O dia 24 de julho de 2010 amanheceu com um céu limpo e o sol radiante. No entanto, o tempo mudou bruscamente, e o resto do dia seguiu sob tempo nublado e chuvoso. De um susto, Pernambuco e a música clássica se deram conta da perda que sofreram – e prosseguiram, à tarde e à noite, em um ritmo triste e saudoso. No dia anterior, às 21h30, o maestro Cussy de Almeida, aos 74 anos, perdeu a luta contra a insuficiência pulmonar que o acometia nos últimos anos. O maestro, referência em todo o Brasil, já enfrentava problemas respiratórios há algum tempo e contava com a ajuda de um aparelho para respirar. Ele estava há 55 dias internado no Hospital Santa Joana, no Recife, onde faleceu.

O Corpo foi velado e cremado no cemitério Morada da Paz, em Paulista. No velório do maestro, muita emoção entre os presentes. Familiares, amigos e admiradores se juntaram à missa de corpo presente, celebrada na capela central do cemitério às 15h, pelo amigo e pároco da Igreja de Casa Forte, Padre Edvaldo Gomes. Coroas de flores, vindas dos mais diversos lugares, adornavam o local e simbolizavam as condolências de instituições amigas e conhecidos, que expressavam apreço e admiração por Cussy e sua trajetória de vida.

Cussy de Almeida sempre se dedicou à música desde criança. Entre inúmeros trabalhos realizados, no Brasil e no exterior, o mais recente foi a criação da Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque, que este ano completou quatro anos. Em 2006, Cussy teve a missão de levar a música e a cidadania para crianças e adolescentes do Coque, dando-lhes um novo rumo a seguir. Com apenas 28% de sua capacidade respiratória, o maestro formou uma orquestra com jovens que, até então, diferentemente dele, nunca haviam tido a oportunidade de experimentar a música. Hoje, a Orquestra Criança Cidadã é um grupo conceituado e reconhecido nacionalmente. Ele se tornou um dos projetos sociais mais bem sucedidos do Brasil.

Como um último gesto de gratidão e afeto, a Orquestra compareceu ao Morada da Paz para homenagear o homem que, para ela, foi mais que um professor – foi alguém que lhes estendeu a mão. Um amoroso e rigoroso amigo. Os garotos se reuniram e, sob a regência da professora Aline Lima, executaram três canções: Carinhoso, de Pixinguinha, My Way, de Paul Anka e Czardas, de Vittorio Monti. Não poderia haver modo melhor de rememorar Cussy: a música foi uma grande paixão sua. Ali, à sua maneira, os Meninos do Coque fizeram o que aprenderam a fazer de melhor: expressar seus sentimentos através da música.

E os sentimentos não paravam de transbordar. Após as músicas, no fim da cerimônia, as pessoas formaram fila para dar um último adeus mais de perto ao regente. Cussy de Almeida repousava tranquilo. Na cabeça, levava a boina que tanto gostava de usar. No peito, o broche do Clube Náutico Capibaribe, time que dividia espaço no coração do maestro junto com sua família e a música. No rosto, um semblante calmo e sereno, como quem tem a consciência leve por ter cumprido com êxito a sua missão. Cada um que passava fazia uma prece; uns sorriam com ternura, davam um aceno; outros choravam – principalmente as crianças da Orquestra. Os garotos se aglomeraram em torno do amado mestre. Abraçados, choravam a dor de perder um grande amigo que lhes deu um novo sentido de vida.

Um último acorde de violino soou pela capela. Pouco a pouco, as pessoas foram saindo. No início da noite, ocorreu a cerimônia de cremação, mais íntima e limitada à família. A tarde, no entanto, já havia sido suficiente para se despedir. A saudade seria inevitável. Mas Cussy de Almeida ainda permanece entre os vivos: em cada trabalho que construiu e em cada pessoa que cativou. Os Meninos do Coque continuarão o seu caminho. E um pouco de Cussy ainda viverá dentro de cada membro da Orquestra Cidadã. Porque ali ele sempre será lembrado. E a lembrança nunca morre.

O SÉTIMO DIA

Depois de uma semana, parentes e amigos de Cussy de Almeida se reuniram novamente para lembrá-lo mais uma vez. A igreja do Colégio Salesiano Sagrado Coração ficou pequena para acolher os que vieram prestigiar Cussy. A noite foi repleta de homenagens comoventes.

A missa de sétimo dia foi celebrada pelo arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, que deu início à missa com a leitura do evangelho de São Lucas, que narra a saga da morte e da ressurreição de Jesus Cristo. Entre os intervalos das leituras, a Orquestra Criança Cidadã, que não poderia deixar de estar presente e prestigiar o maestro Cussy, fez performances formidáveis, como Czardas, Carinhoso, Cinema Paradiso e Abôio, sendo esta última uma composição do próprio Cussy de Almeida. O auge da emoção foi durante a execução de My Way. Lágrimas corriam silenciosas pelos rostos atentos à missa. Os músicos da orquestra e a maestrina, Aline Lima, se comoveram bastante na hora da performance.

A noite ainda reservou mais surpresas aos presentes. No final do evento, cinco pessoas fizeram discursos exaltando a vida e a obra de Cussy. Entre elas, encontravam-se Clóvis Almeida – irmão do maestro –, Nathália Wicks Almeida – filha – e o juiz e amigo João Targino, coordenador geral da Orquestra. A cerimonialista Tatiana Marques, que foi a última a discursar, propôs, depois de sua fala, um minuto de aplausos ao regente. E assim, durante um minuto, em vez do famoso minuto de silêncio, uma longa salva de palmas ecoou pela igreja, juntamente com inúmeros bravos. Por último, a atriz Geninha da Rosa Borges encerrou as homenagens recitando e interpretando um poema de Cecília Meireles, O Último Andar.

VIDA E OBRA

Cussy de Almeida Netto nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1936. Seu pai, o compositor e pianista Waldemar de Almeida, transmiti-lhe u o gosto pela música clássica desde cedo. Começou com o violino, aos seis anos. Aos 14, quando estudava com o maestro Vicente Fittipaldi, iniciou sua carreira profissional ingressando na Orquestra Sinfônica do Recife. Era o mais jovem músico do grupo. Nela, se destacou como solista.

Nessa época, o jovem Cussy conseguiu seu primeiro emprego. Aos 16, também tocava em casas noturnas do Recife. Quando trabalhou na Rádio Jornal do Commercio, teve contato com grandes artistas e músicos populares dos anos 50. Confundia-se diante de tantas atividades, mas, ao mesmo tempo, sabia o que queria: música. A música, em suas diversas formas, fascinava-o. Tinha vocação para o violino, mas se interessava também por piano popular e pelo jazz norte americano.

Com as economias que juntou, se mudou para Paris em 1958, onde foi se especializar em violino no Conservatório Superior de Música. O incentivo veio, nada mais, nada menos, do que do consagrado compositor Heitor Villa Lobos, com quem conviveu na Cidade Luz e de quem obteve grande aprendizado. O tempo que permaneceu na Europa foi difícil, mas muito oportuno para investir no aprimoramento musical. Lá, atuou como solista na Orquestra Internacional da Cidade Universitária e obteve uma bolsa para um curso superior em Genebra, na Suíça. Em 1962, formou-se; em seguida, passou à pós-graduação na Classe de Virtuosidade, destinada apenas aos músicos mais talentosos. Atuou também na Orquestra de Jovens Músicos da Suíça e na Orquestra de Câmara de Bienne.

Após retornar ao Brasil, no início dos anos 60, Cussy de Almeida atuou como Oficial de Chancelaria no Itamaraty, sob indicação do presidente João Goulart, e foi professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Nas décadas de 70 e 80, fundou orquestras memoráveis, como a Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco (1970) e a Orquestra de Cordas Dedilhadas (1982). E não parou por aí. Em 1974, foi o primeiro a adquirir um violino Stradivarius no Brasil e solou em diversas orquestras, sendo considerado o maior violinista brasileiro. Entre outras atividades, presidiu o Instituto Nacional de Música da Funarte e a Fundação de Cultura da Cidade do Recife, além de haver fundado o museu Murilo Lagreca, o Teatro Barreto e a Casa do Frevo.

Cussy de Almeida é um exemplo de determinação e dedicação. Pai de cinco filhos, foi casado duas vezes. Ao mesmo tempo em que sabia ser paciente e sensível, sabia ser rigoroso e exigente – principalmente, no que diz respeito à música.. Segundo o próprio, “para chegar a qualquer lugar, com sucesso, é preciso ter disciplina, força de vontade e humildade, humildade e humildade”. E foi isso o que ele transmitiu àqueles que viviam a sua volta. Cussy recebeu várias condecorações. No exterior, recebeu os prêmios Alberto Lulin e Virtuosidade, em Genebra. No Brasil, recebeu prêmios como a Medalha Pernambucana do Mérito, a Medalha do Mérito da Cidade do Recife e o título de Cidadão de Pernambuco. O maestro atuou também como compositor. Entre as muitas obras que compôs, destacam-se Kyrie, Abôio, Cirandância, Nordestinados, Glória e Ave Maria.

Por duas vezes, Cussy dirigiu o Conservatório Pernambucano de Música – de 1967 a 1979 e de 1991 a 1994, tendo fundado, nesta segunda vez, a Orquestra Suzuki do Alto do Céu. O projeto, que há muito tempo era almejado pelo maestro, ousava no intuito do resgate da cidadania de crianças e jovens carentes através da música, demonstrando interesse pelo engajamento social. Em 1995, a projeto foi encerrado, mas o sonho de Cussy não havia morrido. Dez anos depois, ao realizar um concerto com a extinta Orquestra do Alto do Céu, o maestro chamou a atenção do juiz João Targino, que, mais tarde, o convidou para, juntos, delinearem o esboço do que hoje se chama Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque. Nos últimos quatro anos de sua vida, Cussy se dedicou inteiramente a esses meninos, deixando-lhes uma rica herança com lições de disciplina, cidadania, humildade e, claro, música.

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