Revista Criança Cidadã - Matérias

Nildo Nery: uma vida dedicada ao social

Edição 25 - Janeiro/Abril 2018

Nildo Nery: uma vida dedicada ao social

Trajetória do magistrado pernambucano foi marcada pela criação de projetos sociais, em especial a Associação Beneficente Criança Cidadã

- Houldine Nascimento

“A melhor maneira de ser feliz é ajudando o próximo.” Essa forma de pensar guiou a trajetória do desembargador Nildo Nery dos Santos (1934-2018), um magistrado sempre voltado para o social. Desde o período em que era estudante universitário até a fundação e manutenção da Orquestra Criança Cidadã (OCC), sua vida esteve dedicada à busca do bem-estar do próximo.
Prova de tamanha preocupação é que, um dia após assumir a presidência do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), no biênio 2000/2002, o magistrado lançou o Programa Criança Cidadã, responsável por garantir moradia a 24 famílias desabrigadas que se amontoavam nas calçadas da Rua do Imperador, no bairro de Santo Antônio, centro do Recife. De lá, elas se transferiram para as vilas Nossa Senhora de Fátima e São Francisco, no Cordeiro, que foram criadas especialmente para recebê-las.
“A minha preocupação com o social, especialmente com o descaso com as crianças que perambulavam pelas ruas do Recife, foi crescendo. Um tanto quixotescamente, implorei às demais autoridades e à sociedade em geral que se aglutinassem para enfrentar tão delicado problema”, discursou, em cerimônia que marcou sua aposentadoria como desembargador após 42 anos e seis meses de judicatura, em 2004.
O juiz de Direito João Targino, que conviveu por quase duas décadas com Dr. Nildo, foi convidado para coordenar o projeto. “Tive sorte e privilégio por ter convivido, diariamente, desde o início de sua gestão como chefe do Judiciário pernambucano, com uma figura humana plúrima, de virtudes excelsas nas vitórias e nos reveses”, comenta.
O programa também proporcionou a formação do Coral Criança Cidadã, que reunia as crianças retiradas das ruas do Recife. Em 2003, o projeto se expandiu, resultando na criação da Associação Beneficente Criança Cidadã (ABCC), que se tornou reconhecida internacionalmente por seus feitos em prol de crianças em situação de vulnerabilidade social. Atualmente, a organização não governamental gere três projetos sociais: o da própria ABCC, focado em esportes, a Olimpíada Criança Cidadã e a Orquestra Criança Cidadã.
Segundo Targino, Dr. Nildo Nery enfrentou resistência para implantar ações sociais no Judiciário. Na condição de juiz, enxergava que a prevenção era um caminho mais eficaz do que decisões meramente punitivas. “Ele reverteu uma ordem: primeiro, prevenir; depois reprimir. Como todos os que quebram paradigmas, enfrentou muitas críticas e incompreensões. Mas essas pessoas tiveram tempo para reconhecer seus feitos.”
A ideia de formar uma orquestra jovem em uma localidade carente do Recife estava nos planos da dupla. Assim, Targino e Nery recorreram ao maestro Cussy de Almeida para conduzir a parte artística do projeto social inaugurado em 25 de julho de 2006 na comunidade do Coque, uma das áreas com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade. De lá para cá, centenas de instrumentistas foram formados na Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque, que tem como princípio a preparação destes jovens para o bom convívio em sociedade.
O êxito da OCC proporcionou a expansão do projeto, em 2014, com a criação de um núcleo em Camela, distrito do Ipojuca, que tem o suporte da Prefeitura do Ipojuca; e, em 2017, com uma extensão na zona rural de Igarassu, dentro do complexo das usinas termoelétricas Pau Ferro I e Termomanaus, da EBrasil Epesa.
A conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE) Nair Andrade dos Santos participou da idealização da ABCC e integra ativamente o Conselho Administrativo da ONG. Colega de tribunal de Nildo Nery, ela destaca as ações sociais de que participou ao lado do magistrado. “Na primeira vez em que atuei no tribunal, Dr. Nildo presidia a sessão do júri. Eu era recém-formada. Desde então, estivemos juntos em trabalhos sociais como a fundação da ABCC. Cheguei a trabalhar durante quatro anos em tempo integral no Espaço Cultural e Esportivo Criança Cidadã [ABCC Sede]. Movimentamos a parte social ofertando cursos às mulheres da vila”, ressalta.
VIDA NO RECIFE — Nascido em 14 de novembro, em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, Nildo Nery foi o terceiro de quatro filhos que o comerciante carioca Newton Nery dos Santos e a goianense Gercina César dos Santos tiveram. No entanto, foi no Recife que o desembargador construiu boa parte de sua trajetória, ao se estabelecer nos bairros da Boa Vista e São José, no centro da cidade. “O Recife sempre viveu em mim e eu nele”, afirmou, demonstrando carinho pela capital pernambucana.
Ainda jovem, viu a cidade passar por diversas transformações, como a chegada da eletricidade, o êxodo da população interiorana para o Recife, a consequente explosão das favelas e o aterro de manguezais, ocasionando o crescimento desenfreado do setor imobiliário. Foi também no Recife que se casou com Dona Lenice César dos Santos, em 20 de dezembro de 1959. Do matrimônio, nasceram seis filhos: Maria Dolores, Maria Cristina, Gercina Maria, Nildo Filho, Newton Fernando e Nilson.
A relação com a família era bastante afetuosa, como relata um dos filhos, o assessor jurídico Nilson Nery. “Quando eu era criança, tinha cinco, seis anos de idade, papai saía para trabalhar pela manhã. Ele era professor na Unicap e à tarde ia para o Tribunal. Ele chegava cansado à noite, éramos seis filhos. Eu me preocupava com ele, escondia uma comidinha, muita gente para comer em casa. Eu já sabia do jeito que ele gostava do ovo, um pouco cru. Desde criancinha, ele era muito importante. O carinho que dava para a gente. Tínhamos muito respeito por ele”, rememora.
Na capital pernambucana, também surgiu a paixão pelo Sport Club do Recife. O afeto pelo time era tão grande que filhos e netos passaram a torcer pelo clube por influência dele. Foi o caso de um dos netos, o advogado Nilson Nery Filho, 23 anos. “Nós morávamos em prédios vizinhos e assistíamos aos jogos do Sport juntos. Sempre que tinha um lance de perigo, ele segurava meu ombro e eu sempre gostava muito”, comenta.
Foi durante uma partida do Sport, em 2010, que Dr. Nildo Nery sofreu um AVC, um dos episódios mais difíceis de sua vida. “Estávamos eu, meu pai e meu tio”, recorda Nilson Filho. Desde então, a saúde do ex-presidente do TJPE não foi a mesma. Em setembro de 2017, Dr. Nildo foi internado em um hospital do Recife, onde lutava contra um quadro de debilidade dos órgãos decorrente da fragilidade física crescente ano a ano. No último dia 3 de janeiro, faleceu, tendo sido sepultado no cemitério Morada da Paz, em Paulista.
CARREIRA NA JUSTIÇA — O início da produtiva carreira como magistrado ocorreu em 1954, quando ingressou na Faculdade de Direito do Recife, onde concluiu a formação quatro anos mais tarde. No ambiente acadêmico, Nildo Nery demonstrava uma preocupação com os diversos entraves que envolviam o sistema carcerário brasileiro já naquele momento. Para apresentar soluções, fez uma imersão no sistema penitenciário de países europeus, elaborando um estudo da situação das prisões de Portugal, Espanha, Itália e Alemanha.
Em 1957, passou a integrar o quadro do Tribunal de Justiça de Pernambuco, no cargo de oficial judiciário. Desde então, foi avançando na Corte de Justiça local, passando a ser oficial de gabinete (1959), diretor das Seções Criminal e Cível até chegar ao cargo de Secretário Geral do Tribunal, em 1961. Um ano depois, após aprovação em concurso, se tornou Juiz de Direito e passou a atuar em comarcas do interior, como Quipapá e Altinho, retornando ao Recife em 1966 na condição de Juiz Corregedor de Comarcas da 2ª Entrância. Em 1968, foi promovido para Garanhuns, mas voltou a trabalhar no Recife no ano seguinte, na 2ª Vara Privativa do Júri. Nildo Nery atuou em casos de grande repercussão em Pernambuco, como o assassinato de Padre Henrique, em 1969, no auge da repressão da Ditadura Militar no Brasil. A vítima assessorava naquela época o arcebispo do Recife, Dom Hélder Câmara, e foi encontrada com diversos sinais de tortura.
O Direito Criminal sempre mereceu sua atenção. Em 1974, se tornou professor de Criminologia na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), em paralelo à atividade de magistrado. Assim, Nildo Nery seguiu desenvolvendo pesquisas, como o trabalho “Jornal, rádio, televisão e justiça”, finalizado em 1981 como extensão no Centro de Estudos Jurídicos da Universidade de Umbria, na Itália. O estudo apresentava de forma contundente as influências negativas de matérias divulgadas por veículos da imprensa no estímulo à criminalidade, gerando grande repercussão à época.
Por essa tese, única aprovada por unanimidade no curso, recebeu diversas homenagens no país e o governo o premiou com a comenda de Cavaleiro da Ordem do Mérito da República Italiana pelo serviço público prestado. Mais adiante, fundou a Escola Superior da Magistratura de Pernambuco (Esmape) e se tornou o primeiro diretor-geral dela (1987-1991).


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