Revista Criança Cidadã - Matérias

Artigo - Como medir o valor de um violino?

Edição 24 - Setembro/Dezembro 2017

- Matheus Soares*

Violinos estão entre os objetos com as maiores faixas de preço do mundo, custando desde algumas centenas, até dezenas de milhões de reais quando se trata de leilões de exemplares antigos. Parte dos valores é justificada pelos processos de construção: industrial ou artesanal. O processo industrial consegue produzir centenas de instrumentos por dia e, com isto, baratear o custo final. No entanto, o automatismo muitas vezes entrega ao acaso a produção de instrumentos que tenham ótimas qualidades sonoras: um instrumento chinês de uma mesma série pode soar muito bem ou pobremente, uma vez que não é hábito do processo em larga escala a escolha minuciosa de madeiras ou a realização de ajustes na construção para procurar tirar o melhor de uma madeira específica.

Bons instrumentos podem ser feitos em grandes fábricas, mas, até os dias de hoje, o ápice da construção de instrumentos está relacionado ao trabalho artesanal – talvez seja esta a razão de a luteria, a arte de construir instrumentos, ainda conseguir ser uma das poucas formas de produção artesanal que conseguem conviver com a industrialização. O processo artesanal mantém, além de uma construção que busca qualidades acústicas respeitando as características de cada madeira, a possibilidade de ornamentar e dar personalidade, uma vez que cada instrumento tende a sair com características únicas. No entanto, o processo artesanal de um único autor, em média, produz um instrumento por mês e o custo de um instrumento destes normalmente chega a alguns milhares de reais, a depender de vários fatores, desde estética e som, até ao próprio “nome” que um autor moderno possa construir ao longo de sua carreira.

Mas como pode um instrumento musical conseguir chegar às cifras de milhões de dólares? Muito passa pela estrada que o violino percorreu. Levam-se em conta os ombros de grandes músicos que o apoiaram; a fama, talento, proficuidade e contexto do artesão, que podem ter lhe rendido um lugar importante na história; e ainda é importante pensar na relação direta que um instrumento possa ter com um tempo em que a música erudita desfrutava um período mais vivo e intensamente produtivo. Remetendo a este tempo, nomes como Antonio Stradivari e Guarneri Del Gesù representam para a luteria o que Mozart e Beethoven representam para a composição musical. Acredita-se ainda, que o processo de secagem lenta e o uso constante através dos anos confiram uma sonoridade diferenciada a instrumentos antigos. Por todos estes motivos, o processo de construção artesanal moderno normalmente passa pelo estudo de instrumentos antigos e se inspira nesses modelos, uma cópia exata pode trazer um tanto do valor do instrumento original e conceder a um instrumento moderno o valor de até uma ou duas centenas de milhares de dólares.

No entanto, é comum certa confusão entre as pessoas ao atribuir o alto valor monetário exclusivamente às qualidades sonoras de um instrumento. Isso dá asas à imaginação e cria fantasias sobre um ideal de sonoridade que jamais seria possível existir fora daqueles instrumentos (e daquela época). Uma boa sonoridade pode depender de vários fatores, desde o clima à técnica, à intimidade do músico com o instrumento específico e à própria subjetividade do instrumentista, não sendo uma ciência exata. Talvez parte importante da sonoridade esdruxulamente linda que se pode escutar de um Stradivari ou Guarneri Del Gesù possa ser creditada ao próprio instrumentista, já que estes instrumentos não dificilmente são tocados pelos maiores músicos do mundo, os que regam o talento com anos de estudo, ou seja, talvez não se tratando apenas do instrumento em si.

É de se entender que o contato com o antigo possibilita a uma conexão mais profunda com o tipo de musicalidade de certa época, a que se tenta resgatar procurando seguir fielmente as indicações do compositor, mas talvez seja igualmente importante que a música respire certos ares de novo, para que possa pulsar cada vez mais forte e presente entre nós. Mas, no final, tudo isto está condicionado à subjetividade do violinista: uma boa apresentação poderá depender bastante disto, do que o fizer se sentir bem, seja um instrumento moderno com verniz brilhante, seja um instrumento antigo com sua história, seja um instrumento excentricamente único (dentro de alguns limites saudáveis, claro) – qualquer coisa que o inspire a trazer a um concerto as cores que a humanidade vem pintando no silêncio.

*Aluno da Escola de Formação de Luthier e Archetier da Orquestra Criança Cidadã

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