Revista Criança Cidadã - Matérias

Os dois primeiros degraus orquestrais da OCC

Edição 24 - Setembro/Dezembro 2017

Para garantir um lugar na Orquestra Jovem — a Orquestra Criança Cidadã propriamente dita — o caminho dos futuros músicos profissionais passa pelos grupos Infantil e Infantojuvenil

- Paula Passos
Nas grandes apresentações da Orquestra Criança Cidadã, você costuma ver alunos mais velhos: no início da idade adulta, com tempo e experiência no projeto. Mas antes de chegar a este nível artístico e técnico, eles precisam de preparação e muito estudo, o que requer participar primeiro das orquestras Infantil e Infantojuvenil da OCC.

Regida pela professora de violino Susan Hagar há dois anos, a Orquestra Infantil (também chamada internamente de Orquestra C) é composta por 43 alunos matriculados nos dois turnos, com idades que variam entre 9 e 14 anos. Após um ano de aulas, os estudantes fazem uma prova para saberem em que nível estão e que posição vão ocupar dentro da Orquestra. Esses passos iniciais são essenciais para a formação dos pequenos.

“É a primeira experiência deles com uma orquestra, então, é um processo em que eles precisam aprender a ler partitura, a fazer anotações nessa partitura, entender o que estão tocando, trabalhar em conjunto, ficar atento também ao que o colega toca, além de ter noção da disciplina de uma orquestra: saber a hora de levantar, ficar em silêncio após o término de uma música, e também entender os gestos do maestro. Eles gostam muito de conversar, então, é preciso aprender a hora de falar”, explica a professora Susan.

A violinista também destaca que em uma orquestra de iniciantes é importante o aprendizado da postura, da afinação e da leitura musical, esta última, segundo ela, a maior dificuldade para os alunos. “Todos os professores daqui trabalham muito bem antes que eles cheguem até mim, mas é natural que nesse começo isso aconteça. Além dessa parte mais técnica, eles precisam ter respeito pelo colega, esperar quando o outro naipe toca, não rir quando o colega erra, ter paciência para que todos estejam em um nível equivalente”, diz.

O contato de Susan com crianças já acontece há algum tempo, quando a professora dava aulas particulares e em grupo para crianças nos Estados Unidos, onde concluiu sua graduação e fez mestrado em Pedagogia Suzuki, pela Universidade de Hartford, estado de Connecticut. Mas esta é a primeira vez que a professora assume o papel de regente. “Está sendo uma experiência maravilhosa. Eu tenho desenvolvido habilidades em outros instrumentos como o violoncelo e o contrabaixo e entendendo a mecânica deles, além de saber como reger, porque isso não é preciso nas aulas individuais. É uma dinâmica diferente, um ensaio diferente”, compara.

No repertório da Infantil, os pequenos já executaram arranjos de obras do período barroco, canções folclóricas nacionais e estrangeiras, temas de filmes e canções da MPB. O maior objetivo da violinista e regente é fazer com que os alunos soem bem dentro do nível em que estão: “a intenção é fazer com que um grupo iniciante soe com excelência”, conclui Susan.

ORQUESTRA INFANTOJUVENIL — “A criação da Orquestra Infantil me ajuda muito, porque os alunos quando chegam a mim não estão tão verdinhos”. É o que pensa o maestro da Orquestra Infantojuvenil, Enoque Souza. Atualmente, o professor de percussão rege 28 alunos, com idades entre 13 e 19 anos e que tocam instrumentos de cordas e percussão. Em alguns concertos, os músicos do Grupo de Sopros, coordenado pelo professor de fagote Josias Felipe Bezerra, se juntam ao elenco da Infantojuvenil.

A maior dificuldade que professor Enoque encontra é conseguir nivelar todos os naipes. “É natural que haja esse leve desnível. São pouquíssimas as orquestras que não têm isso. O que eu faço é me dedicar um pouco mais aos naipes com algum déficit”, comenta. Embora esteja à frente da Infantojuvenil há quatro anos, Enoque integra a equipe da OCC há sete, como professor de percussão (vide edição n° 21 da Revista Criança Cidadã, pp. 14 e 15).

Mozart, Beethoven, Vivaldi e Tchaikóvski são alguns dos compositores executados no repertório da Orquestra Infantojuvenil (ou Orquestra B, como é referida pelos alunos e professores), que eventualmente substitui a Orquestra Jovem, principal grupo do projeto. Além do repertório barroco-clássico-romântico, há ainda a presença de trilhas sonoras de filme e de músicas populares. O professor explica a escolha pela diversidade musical: “Como vão muitas famílias aos concertos, o público tende a se identificar mais com o repertório popular, então, se a gente tocar só Mozart, Vivaldi, a apresentação vai se tornar enfadonha para eles”.

Os alunos ficam aproximadamente dois anos no grupo e fazem o teste para tentar ingressar na Orquestra Jovem, a Orquestra Criança Cidadã propriamente dita, objetivo final de todos os alunos do Núcleo do Coque. “Eu gosto muito, porque é uma orquestra transitória e o trabalho nunca para. Quando eles estão começando a ter um nível bom, eles vão para a Jovem. Dá um prazer imenso ver esse aprendizado e esses movimentos de transição, porque é algo muito marcante para eles”, finaliza Enoque.

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