Revista Criança Cidadã - Matérias

O menestrel do lirismo pernambucano

Edição 24 - Setembro/Dezembro 2017

Os 55 anos de carreira de Getúlio Cavalcanti o colocaram no patamar de compositor vivo mais importante do frevo de bloco – e mais inspirado, com cerca de 200 canções inéditas

- Carlos Eduardo Amaral

”Falam tanto que meu bloco está / dando adeus pra nunca mais sair / e depois que ele desfilar / do seu povo vai se despedir...”. Seja na TV, seja nas ruas de Olinda e Recife, uma das canções mais ouvidas durante o carnaval (ou em função dele) saiu da pena de um atuante nome da música pernambucana, em atividade desde 1962, quando escreveu o frevo-canção Você gostou de mim.

Getúlio de Souza Cavalcanti nasceu em 1942, na cidade de Camutanga, Zona da Mata Norte de Pernambuco, vizinha a Timbaúba, Itambé e Ferreiros. Em Timbaúba, o compositor residiu e estudou, antes partir para o Recife, aos 15 anos de idade; aos 20, despontou com Você gostou de mim, registrada em LP pela lendária gravadora Rozenblit.

O trabalho como representante comercial da fábrica de eletrodomésticos Arno e a faculdade de administração – concluída em 1970, sem que Getúlio nunca tivesse se interessado em pegar o diploma –, retardaram a alavancagem da carreira do músico. A consagração veio apenas em 1975, com O bom Sebastião (desta vez, um frevo de bloco), em memória do compositor Sebastião Lopes (1905-1974).

A canção havia recém-ganhado o Concurso de Música Carnavalesca da Prefeitura do Recife daquele ano, quando o historiador e jornalista Leonardo Dantas Silva pediu para que o presidente do bloco Banhistas do Pina, Lindivaldo de Oliveira Leite, o Seu Vavá, a incluísse como enredo do grupo no carnaval seguinte. Com a permissão do então maestro da orquestra do Banhistas, Luiz Faustino (1916-1984), O bom Sebastião entrou no repertório e garantiu o primeiro lugar para a agremiação em 1976, na categoria blocos carnavalescos.

GRUPOS DE FREVO E CONCURSOS — Para quem não é familiarizado com o carnaval pernambucano, é preciso diferenciar os principais grupos que circulam ao som de frevo durante o carnaval: clubes, troças e blocos. Troças são agremiações informais e simples, que puxam a folia com grupos de frevo de rua (metais, saxofones e percussão) reduzidos, saem de dia e não possuem sede; por sua vez, os clubes saem de suas sedes (próprias ou não) para as ruas à noite, com orquestras de frevo de rua de número expressivo. Ambas tocam majoritariamente o frevo de rua ou o frevo-canção.

Já os blocos (mistos ou líricos) não executam o frevo de rua ou o frevo-canção, e sim o frevo de bloco – ou marcha de bloco, como prefere a maior parte dos integrantes dessas agremiações –, um estilo menos rápido e mais sentimental do frevo, concebido para orquestras de pau e corda (formadas por violões, cavaquinhos, flautas, clarinetas e percussão). Também não cabe, nos blocos, se fazer o passo do frevo (a dança frenética ligada ao frevo de rua), mas as evoluções, gestos de corpos mais lentos e cadenciados.

Desde O bom Sebastião, Getúlio Cavalcanti tem emplacado sucessivas conquistas em concursos musicais, especialmente com marchas de bloco e frevos-canção, a exemplo de quando dominou o Frevança, posicionando-se entre os três primeiros colocados em uma ou outra categoria durante quase toda a década de 1980 – ou como no ano de 2011, quando ganhou o primeiro lugar em ambas.

O sucesso definitivo de Getúlio veio no final de 1980, com Último regresso, dedicada ao Banhistas do Pina. A marcha de bloco nasceu como um apelo emotivo do compositor, ao saber, em uma notícia de jornal, que o bloco iria deixar de desfilar naquele ano porque estava com dificuldades financeiras. Na boca do povo desde então, Último regresso alcançou uma popularidade comparável à de Madeira que cupim não rói, de Capiba, outra das canções mais entoadas a cada carnaval.

TRIBUTO À ORQUESTRA — Uma das mais de 300 canções de Getúlio homenageia a Orquestra Criança Cidadã. O frevo de bloco Os Meninos do Coque foi tocado em uma cerimônia da Academia Pernambucana de Música (APM) no Memorial da Medicina de Pernambuco, no bairro do Derby, no Recife. Na ocasião, dia 27 de setembro de 2016, os alunos de música da ABCC, coordenados pela professora Carmen Lúcia, receberam uma homenagem da APM em nome da OCC.

Mas faltava os próprios Meninos do Coque ouvirem a música inspirada por eles. E a Orquestra Criança Cidadã promoveu esse encontro no dia 06 de outubro, quando Getúlio visitou pela primeira vez a sede do projeto e se emocionou por ter conhecido de perto as crianças e adolescentes que o motivaram. Você pode conferir a letra cifrada na imagem ao lado, e para acessar o vídeo no YouTube basta escanear o QR code no celular.

Os Meninos do Coque saiu no último CD de Getúlio, intitulado O bonde do futuro, lançado no dia 07 de janeiro de 2018. Para o mês de fevereiro, quando completou 76 anos de idade e 56 de carreira, o músico foi homenageado por um livro-reportagem sobre sua vida e obra, editado pela Cepe – Companhia Editora de Pernambuco.

Após 17 anos trabalhando como representante da companhia de tecnologia IBM, Getúlio aposentou-se mas ainda se mantém na ativa: com sua empresa de representação de comércio de informática, a Recivix, e cantando, tanto pela realização pessoal e artística quanto pela defesa de todas as agremiações carnavalescas, repetindo sempre o refrão que mais o consagrou: “Não deixem, não / que o bloco campeão / guarde no peito a dor de não cantar...”.

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