Revista Criança Cidadã - Matérias

Nos braços de Pernambuco, a Orquestra leva a boa música

Edição 24 - Setembro/Dezembro 2017

Parcerias institucionais em nível estadual e municipal garantem a disseminação cultural do trabalho musical e social executado pelo projeto desde 2006

- Tamíz Freitas

“O primeiro projeto social do Brasil a tocar para o Papa”, “a Orquestra pernambucana que conquistou o Papa Francisco”, essas são algumas das formas que o público da Orquestra Criança Cidadã usa para identificá-la em meio a novos admiradores. Tocar para o Sumo Pontífice, em 2014, foi um marco na história do projeto social. Para a realidade de muitos alunos, ir ao exterior era possível apenas nos sonhos.

A primeira viagem internacional deles, aliás, foi para a Alemanha, em 2013. Para a Itália, já foram duas vezes: em 2015 e no último mês de novembro; e em 2016, conheceram Nova Iorque. Já com a Turnê Brasil, em 2015, visitaram diversos estados. Depois de trajetórias tão longas, a Orquestra estava com saudade de casa, do público pernambucano. E 2017 veio resolver isso, a partir de parcerias com órgãos e instituições estaduais e municipais, levando a música para a capital e cidades do interior.

Além dos quatro concertos oficiais promovidos pela Orquestra ao longo de 2017, novos roteiros foram criados, no segundo semestre – sem falar das apresentações periódicas e didáticas realizadas na Caixa Cultural Recife, e do projeto “Música para Todos”, da EBrasil Energia, que leva grupos de câmara da OCC a hospitais, asilos, creches, presídios, casas de detenção e abrigos da Região Metropolitana do Recife (RMR).

Por sua vez, a estreia da Orquestra Infantil e do Grupo Contratempo no Teatro Barreto Júnior, em 02 de novembro, fincou a bandeira da OCC nesse importante espaço cultural da Zona Sul recifense, trazendo um repertório inédito com os instrumentistas mais novos do projeto. Esse concerto marcou a disponibilização, por parte da Fundação de Cultura da Cidade do Recife (FCCR) e da direção do teatro, de pautas para a Orquestra e seus grupos representativos durante 2018.

Da Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer da Prefeitura da Cidade do Recife (PCR), veio o convite para participar no projeto Música na Igreja, em agosto último, e também na disponibilidade para eventos do Recife Antigo de Coração, a partir de 2018. O gerente de projetos turísticos da pasta, Bráulio Moura, avaliou a colaboração da Orquestra: “O balanço é positivo devido à quantidade de pessoas que comparece aos eventos, que são gratuitos e carregam o valor cultural da Igreja com acústica ideal para a apresentação”.

Gabryella Boudoux, produtora de eventos da Orquestra, encara a missão de aumentar o raio de extensão em que os grupos representativos do projeto se apresentam. “Fortalecer a música clássica e fidelizar uma plateia para o projeto a longo prazo é o resultado mais significativo dessas parcerias”, explica.

EMPETUR — Graças ao convênio com a Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur), veio a possibilidade de alcançar públicos de diversos lugares, com o projeto Som Cidadão. A estreia da turnê foi no dia 10 de novembro, em Igarassu; daí então, foram contemplados os moradores de Itamaracá, Bezerros, Caruaru, Riacho das Almas, Cabo, Gravatá e Ribeirão. O encerramento foi realizado com uma Cantata Natalina, no dia 15 de dezembro, no Museu Cais do Sertão, no Recife. Ao todo, a iniciativa reuniu milhares de participantes, no roteiro que desbravou Agreste, RMR e Zona da Mata.

O secretário Felipe Carreras, da Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco – pasta responsável pela Empetur –, engrandeceu o projeto na propagação da cultura pernambucana entre turistas e locais: “A Orquestra contribuiu para reverberar nossa cultura a vários pontos do Estado; foi uma forma de chamar a atenção para os outros municípios, todos com potencial turístico, já que em geral os locais de apresentação foram escolhidos para que o público também pudesse contemplar a beleza arquitetônica do destino”. E complementou: “O sucesso de público a cada apresentação foi a prova de que as pessoas querem, sim, ouvir boa música. Basta dar-lhes a oportunidade”.

Foi o que aconteceu com o estudante Artur Pereira Neto, 15, que nunca havia assistido a uma apresentação da Orquestra e se tornou fã. “A gestora da escola divulgou a vinda do projeto para cá e eu decidi conferir; espero que volte outras vezes a Itamaracá”, pediu. Na mesma ocasião, a moradora do bairro de Jaguaribe, Benta de Lima, 52, se destacou com sua animação ao final de cada música executada pelo Núcleo Popular. “Achei uma maravilha, pena que foi pouco, queria virar a noite ao som deles. Está na história da minha vida e na de Itamaracá”, contou, aos risos.

A servidora municipal ainda fez um voto: “Que Wanessa e todos do grupo brilhem muito”. Assim como Benta, outras pessoas se encantaram com a cantora, pedindo abraços e fotos ao final da exibição. Wanessa Mouta, 23, não esperava um retorno tão gratificante. “É incrível ter a oportunidade de ver a reação de gerações, com certeza o dia de hoje entrou para o top 5 das apresentações em que estive”, comemorou.

Outra iniciativa em parceria com a Empetur, junto à Infraero, fez com que a Orquestra recepcionasse turistas com música de qualidade no dia 1º de setembro, no Aeroporto Internacional do Recife. O Grupo de Sopros e a Orquestra Infantojuvenil carregaram o nome e o talento do projeto no saguão de desembarque e levaram aos visitantes frevo, forró, samba e bossa nova. A ocasião serviu para a divulgação do concerto do Clube do Choro, na abertura da exposição “Incursão Fotográfica Meninos do Coque”, que ocorreu no dia 06 de setembro, na Caixa Cultural Recife.

EXPOSIÇÃO — A galeria ficou exposta até o dia 10 daquele mês e trouxe relatos em forma de fotografia de onze alunos do projeto acerca da comunidade em que vivem, o Coque. A coordenação ficou a cargo dos monitores Leandro Roberto, Ronald Santos e Calini Brito, violinistas da Orquestra. A relação entre pai e filho e a arquitetura do bairro foram temáticas presentes nas fotografias do pequeno documentarista e violinista Túlio Silva, 11. “Gostei muito da oficina, porque a gente pôde mostrar que o Coque não só tem coisa ruim, como a maioria das pessoas acha. A gente também mostrou as coisas boas”, reforçou.

O brilho no olhar de Túlio podia até se confundir com o de Rafael dos Santos, 10, garotinho que chamou a atençãono concerto comemorativo do Dia das Crianças, no dia 12 de outubro, no Cais do Sertão. Também de origem humilde, mas com o agravante de não ter a família do lado, como Túlio, Rafael vive no Abrigo da Casa da Avó Raimunda, em Jardim Paulista Baixo, em Paulista. Na hora da música, nada disso importou, com gestos e cantos a meia voz, comemorou o seu dia como qualquer outra criança. “Hoje estou no abrigo, vim com as tias e achei muito legal, tanto a exposição quanto a música”, disse.

A apresentação foi mediada pela Empetur e o Museu Cais do Sertão e reuniu pais, turistas e, claro, crianças. Gilberto Freyre Neto, gestor do espaço cultural, elogiou a performance do Grupo de Sopros: “A Orquestra surpreende a cada dia, traz sempre muita alegria ao Cais do Sertão e pela alegria das pessoas aqui, foi muito marcante para todos nós essa data”.

Mesmo com o incentivo do Ministério da Cultura, que, por meio da Lei Rouanet, permite captar parte dos recursos necessários para a manutenção do projeto, a Orquestra depende de doações financeiras para manter as atividades que atualmente salvam 360 vidas no Recife, no Ipojuca e em Igarassu. Parcerias institucionais como as estabelecidas em 2017 trazem não só um respiro à manutenção da iniciativa, mas ajudam na luta contra a invisibilidade dada por alguns setores da sociedade aos beneficiados. Colaboram para que o canto de Wanessa, as notas musicais e relatos fotográficos que saem das mãos de Túlio, o brilho no olhar do pequeno Rafael e a animação de Benta sejam constantes na história da Orquestra que conquistou o Papa, mas que não parou por aí.

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