Revista Criança Cidadã - Matérias

Projeto Anjos ajuda bebês com microcefalia no Recife

Edição 24 - Setembro/Dezembro 2017

A presidente da ABCC, Myrna Targino, integra o conselho da organização, e a Orquestra Criança Cidadã colabora como parceira da iniciativa, inaugurada há dois anos

- Paula Passos

Duda, 2 anos, faz parte das estatísticas de bebês com microcefalia que ganharam a imprensa em 2015. Com o passar do tempo e com a diminuição do número de casos, o espaço concedido aos portadores da doença foi reduzido na mídia. A empresária Jacira Salsa identificou este silêncio na programação diária e resolveu criar o Projeto Anjos.
“Eu nunca mais tinha ouvido ninguém falar sobre microcefalia. Então, em maio deste ano (2017), com a ajuda de Ana Silvia Coutinho (representando a Faculdade de Olinda - Focca), Ricardo Borges (coordenador da Casa da Cidadania e Justiça) e Myrna Targino (presidente da Associação Beneficente Criança Cidadã), comecei uma mobilização para arrecadar fraldas, cadeirinhas adaptadas e ajuda, de quem pudesse contribuir, para os bebês que têm microcefalia no Recife”, conta.

Com menos de um ano, mais de 300 crianças já foram beneficiadas através do Projeto Anjos. A primeira que recebeu ajuda foi Duda. Os pais da bebê a abandonaram e quem assumiu os cuidados da pequena foram Mirian Pereira (tia de Duda) e Cleane Silva (nora de Mirian). As duas são donas de casa e se revezam nos cuidados da menina, que requer dedicação exclusiva. “Eu entrei na Justiça para conseguir a guarda e, depois, adotar minha sobrinha. O juiz da audiência foi Dr. (João) Targino (coordenador e idealizador da Orquestra Criança Cidadã), que me permitiu ficar com ela”, relembra Mirian.

Myrna, presidente da ABCC e esposa de Dr. Targino, ouvia falar muito sobre o caso. “Ele se sensibilizou com a história, me contou e eu sempre comentava muito com todos que estavam por perto. Foi quando minha irmã, Jacira, juntou esforços e criou o Anjos”, explica como nasceu a ideia do projeto. Atualmente, a OCC contribui com um valor mensal para a família de Duda, que recebe um salário mínimo do Governo, uma espécie de bolsa para famílias com portadores da microcefalia com renda menor que quatro salários mínimos por mês.

“Esse valor que a gente recebe nos ajuda no dia a dia, que é muito caro. Ela toma três remédios caríssimos para diminuir as convulsões (Topiramato, Frisium e Keppra). Vamos várias vezes por semana a médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos. Já teve período que passávamos cinco dias da semana na rua com ela, de ônibus, levando para fazer tratamento. E é difícil, porque ela é pesada (19 kg), nós moramos em Olinda e todo tratamento dela é no Recife. Graças ao Anjos que conseguimos vaga para ela na Fisioterapia lá na Universidade Federal de Pernambuco. Ela melhorou bastante, mesmo precisando de mais sessões. Antes, só ficava paradinha. Agora, ela já se mexe, sorri”, afirma Cleane, que cuida de Duda junto com a sogra.

Quem também ajuda o Projeto Anjos é a CiS Joias, através da criação da coleção La Vie, com peças minimalistas e sacras, como o camafeu em ouro branco, amarelo ou em prata, com um anjo em madrepérola. “O dinheiro arrecadado com a venda das peças será destinado para a compra de equipamentos de fisioterapia para a Casa de Reabilitação, em Olinda”, explica Jacira.

CASA DE REABILITAÇÃO — Por meio de uma parceria com a prefeitura de Olinda, o Projeto Anjos ganhou uma casa de reabilitação, que vai atender adultos, crianças e portadores da microcefalia, na rua Professor Cândido Pessoa, 1216, Bairro Novo, em Olinda. Os estudantes de Direito da Faculdade de Olinda (Focca) dão apoio jurídico às famílias das crianças com microcefalia e a Faculdade São Miguel colabora com estudantes de Fisioterapia e Psicologia. Atualmente, os portadores da doença têm atendimento em outro centro de reabilitação na Av. Pres. Kennedy, s/n, no bairro de Peixinhos.

Quem também tem colaborado para melhorar a realidade dessas crianças é a Câmara de Dirigentes Logistas de Olinda (CDL), que conseguiu encomendar, com baixo custo, cadeirinhas adaptadas para os portadores da doença, à fisioterapeuta Danielly Pereira Lima Gomes (UFPE). A entrega dos 150 exemplares foi realizada na Praça do Carmo, no dia 23 de dezembro, junto com cestas básicas às famílias dos bebês. Para ficar por dentro da programação do Projeto Anjos, é só procurar no Facebook e no Instagram por “Projeto Anjos oficial”.

MICROCEFALIA — Em maio deste ano, o Ministério da Saúde anunciou o fim da emergência nacional em saúde pública por zika e microcefalia no país. Os casos passaram a ter notificação obrigatória no Brasil em novembro de 2015, quando o governo declarou estado de emergência, devido ao aumento de casos da malformação, fenômeno relacionado, posteriormente, à chegada do vírus da zika. Desde o início da crise até o dia 20 de maio de 2017, o país contabilizou 2.753 casos confirmados de bebês afetados, de um total de mais de 13.835 notificações de suspeitas.


Antes de 2015, eram registrados, por ano, cerca de 157 casos da doença. Em 2015, o número cresceu para 1.198 casos. A região Nordeste, à época, apresentava a maior quantidade de bebês doentes. Também foi, por meio do trabalho de pesquisadoras nordestinas, que se pôde estabelecer uma relação entre o zika vírus e a doença que faz com que os bebês nasçam com um crânio menor, impossibilitando o desenvolvimento completo do cérebro. Só em Pernambuco, nesses dois anos, 124 bebês morreram, após o diagnóstico da doença.

Confira outras edições