Revista Criança Cidadã - Matérias

Ensino - O papel da Informática na inclusão social

Edição 23 - Maio/Agosto 2017

Aulas de computação na Orquestra e no Espaço Cultural e Esportivo Criança.

Cidadã são porta de entrada para muitos alunos no mundo digital
Houldine Nascimento.

No mundo em que vivemos, onde há uma predominância cada vez maior das tecnologias, o domínio da informática se tornou imprescindível. Há alguns anos, a Associação Beneficente Criança Cidadã tem proporcionado aos seus beneficiários acesso diário a aulas de computação em seus dois maiores projetos: a Orquestra Criança Cidadã (OCC) e o Espaço Cultural e Esportivo Criança Cidadã (ECECC).

No Núcleo do Coque da OCC, o professor de Informática Eduardo Flor, 35, repassa aos alunos os conhecimentos que obteve no curso técnico em Redes de Computadores pela Unibratec. Há quase cinco anos desempenhando a função no projeto, ele ministra aulas de segunda a quinta-feira, nos turnos da manhã e tarde. “A maioria dos alunos não tem computador em casa, então eles aprendem praticamente tudo aqui, ou seja, eles passam por uma ‘alfabetização digital’. E praticamos exercícios para eles entenderem como tudo funciona”, comenta.

As crianças passam, em média, quatro anos tendo acesso ao ensino de computação. “Tudo inicia com o conhecimento básico em Windows, depois passamos para o pacote Office, em que eles aprendem a mexer com Word, Excel, PowerPoint; em seguida, aprendem a manusear outros sistemas operacionais, como Linux e Mac OS, e, no fim, vem a parte mais técnica, como configurar computadores, roteadores e redes.”

Em 2017, a sala de informática do Núcleo do Coque passou por uma modernização, com a instalação de uma tela grande que projeta atividades.

“Antes, tínhamos um quadro negro, mas percebemos que a maioria das coisas não funcionava nesse esquema, era necessário que os alunos visualizassem as ações no computador”, explica.

Bem antes de seguir na carreira, Eduardo Flor estudou violão clássico na Escola Municipal de Arte João Pernambuco, no bairro da Várzea, no Recife. Trabalhar em um projeto social cujo carro-chefe é a música é uma motivação a mais para o educador. “Eu estudei música e, quando cheguei à Orquestra, me encantei. Meu pai era seresteiro e sempre tive esse sonho de seguir na música. Infelizmente, não pude por não ter condições financeiras. Acabei juntando o útil ao agradável, com a minha formação em Informática e a Música”, revela.

Graças às aulas de Informática no Núcleo do Coque, Victoria Luiza, 14, adquiriu o conhecimento necessário para o manuseio de computadores. “Eu aprendi muita coisa aqui, nunca tinha mexido em Excel e aprendi a fazer trabalhos para a escola, porque o computador que tenho em casa está quebrado”, pontua a jovem que estuda clarinete há um ano.

A ligação do professor de Informática do Núcleo do Ipojuca, Naftali Sabino, 26, com as tecnologias vem desde pequeno.

Aos 12 anos, ele passou a ter aulas de computação na escola onde estudava, em Sirinhaém, na Mata Sul de Pernambuco. “Menos de três meses depois, eu já era monitor da turma”, diz.

Em 2014, se profissionalizou ao concluir o curso superior de Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Unibratec. No mesmo ano, ingressou na OCC Ipojuca e, desde então, leciona às segundas, quintas e sextas-feiras, nos dois turnos.

Com os alunos, o professor costuma recorrer a temas que tratam do cotidiano. “A gente também vê um interesse dessa juventude em fazer algo diferente nas redes sociais, ser youtuber. Então eu já preparei algumas aulas mostrando como trabalhar a edição de vídeo, abrir seu próprio canal.

Também focamos na área do raciocínio lógico e muita matemática. Há uma pretensão minha em sugerir Programação porque desperta muito o pensamento”, avalia.

“Outro aspecto que a gente trabalha muito é o cuidado que deve ser tomado com as redes sociais. Recentemente, fiz uma palestra junto à psicóloga do núcleo, [Manuela Carneiro], e passamos isso para os pais e os alunos... A questão do bullying, do desafio da baleia azul e de como as redes sociais afetam a vida das pessoas”, alerta o educador.

Sabino se orgulha de integrar o quadro de profissionais da Orquestra. “Estar inserido nesse projeto é uma grande realização para mim. No nosso país, precisamos cada vez mais de ações desse tipo, que promovem a inclusão através da música e das outras disciplinas com que trabalhamos. Caso o aluno não se torne um músico, quem sabe ele não venha a ser um grande profissional na área de T. I. ou um ótimo professor de Português ou Matemática? Como Dr. João Targino diz, e eu defendo muito, nosso foco é formar cidadãos.”

INÍCIO COMO VOLUNTÁRIO - O professor Demison Costa, 29, é responsável pelo ensino de Informática no Espaço Cultural e Esportivo Criança Cidadã desde outubro de 2015. Ele ingressou no projeto como voluntário, mas, dois meses depois, tornou-se funcionário. Lá, 165 alunos aprendem computação de segunda a sexta. “Tento trabalhar a forma deles aprenderem a manusear o computador. Muitas vezes, a criança tem a ideia de ligar, abrir o navegador e jogar. Só que os alunos precisam entender que o computador tem várias funções, para não terem algum tipo de dificuldade no futuro”, comenta.

O educador é técnico em Informática pela Escola Técnica Leiaut Cariele, do Recife, e, recentemente, concluiu duas capacitações pela Faculdade Marista: Recondicionamento de Computadores e Robótica Livre. A expectativa é de que os educandos tenham acesso a aulas voltadas para essas temáticas quando uma nova sala de informática for construída. “Assim, vamos reaproveitar os computadores destinados ao lixo e ajudar o meio-ambiente. Esperamos também começar um curso de Robótica Livre e na área de Impressão e Modelagem 3D.”

Para facilitar o aprendizado dos pequenos, ele aposta em jogos educativos: “Além deles se divertirem, eles aprendem muito mais.” Costa também fala sobre a experiência de trabalhar com crianças em situação de vulnerabilidade. “Sempre que posso, dou uma força para os meninos. Eu tive uma experiência de dois anos numa escola da Prefeitura do Recife, trabalhando em horário integral com crianças de várias comunidades carentes e isso me ajudou muito na carreira”, revela.

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