Revista Criança Cidadã - Matérias

Bom gosto, no ritmo que for e em qualquer orquestração

Edição 23 - Maio/Agosto 2017

Nome de Nilson Lopes tornou-se conhecido nos programas de concerto da Orquestra Criança Cidadã, graças aos diversos arranjos que escreveu para o projeto.

Paula Passos.

Algumas músicas são uma constante nas apresentações da Orquestra Criança Cidadã ou de seus grupos representativos, seja em concertos oficiais, eventos privados ou participações especiais. Lamento sertanejo, de Dominguinhos, e Por una cabeza, de Carlos Gardel, por exemplo, conquistam o público até em internatos, hospitais e asilos, em interpretações com quintetos e quartetos de cordas.

Também é bastante tocado (e aplaudido) o Medley Brazil, que une, em sequência, uma bossa-nova, um choro e um frevo: Samba de verão (Marcos Valle), Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu) e Último dia (Levino Ferreira).

Mas a plateia mal sabe que a roupagem desses clássicos que ela ouve tem uma grife, com assinatura: José Nilson Lopes.

Autodidata no ofício, Nilson Lopes cria arranjos para a Orquestra Criança Cidadã desde o primeiro ano de atividades do projeto e já perdeu as contas de quantas vezes atendeu a OCC, mas, segundo ele, já foram mais de cem. “Adoro fazer arranjos. Sinto-me feliz em poder participar de várias composições através do arranjo, dando aos ouvintes uma nova maneira de escutar uma determinada obra. O primeiro que fiz para a Orquestra foi o de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso.

Foi uma espécie de teste, pra ver se o maestro Cussy ia gostar. Ele aprovou e desde então não parei mais”, declara, em entrevista por e-mail.

Nilson também conta que, por ser perfeccionista, fica tenso antes de assistir a alguma apresentação onde serão executados seus arranjos. “Fico com medo de tocarem mal e só consigo relaxar depois de um tempo, mas, além do nível técnico dos músicos, depende muito de quem está à frente. No caso da Orquestra, tanto o maestro Cussy quando o atual, Nilson Galvão Jr., têm um trabalho muito reconhecido no meio.

Então, a OCC executa muito bem meus arranjos”, analisa.

TRAJETO E OFÍCIO – O primeiro contato com a música se deu através da Banda Euterpina Juvenil Nazarena, de Nazaré da Mata, Zona da Mata Norte de Pernambuco, como é natural acontecer em cidades do interior. Nilson tentou aprender vários instrumentos de sopro, mas não conseguiu se desenvolver em nenhum. Só depois que ganhou um violão de uma tia, percebeu que seu interesse estava mais voltado para instrumentos de cordas – e para as notas graves.

A partir desse momento, matriculou-se no Conservatório Pernambucano de Música para estudar contrabaixo elétrico. O tempo de passagem pelo Conservatório foi de seis anos. Depois vieram a Licenciatura em Música na Universidade Federal de Pernambuco e o mestrado em Composição pela Universidade Federal da Paraíba, com orientação de Eli-Eri Moura, o mais destacado compositor de música de concerto do Estado vizinho. “Agora, depois de bastante tempo no mercado, pretendo divulgar mais o meu trabalho como compositor gravando um CD com algumas de minhas obras e fazer doutorado em Composição”, conta.

Sobre o mercado de arranjos, ele explica que os preços dependem de fatores como: duração da música, quantidade de instrumentos que irão executá-la, nível de dificuldade etc. Geralmente, cobra-se 100 reais por cada instrumento (ou cada “voz”, como se fala no jargão musical), se uma música tiver a média de três minutos.

Mas se esse valor fosse aplicado a uma orquestra, tornaria o custo do serviço muito alto para o que o Recife está acostumado a pagar. Então, segundo o músico, o arranjo para uma orquestra custa em média dois mil reais.

Em todos esses anos dedicado à música, o contrabaixista conta que precisou da compreensão da mulher, a pedagoga Cláudia, para cuidar da educação dos filhos e ver o marido durante poucas horas no dia. “É muito bom encontrar alguém que entenda seu trabalho, porque eu sempre trabalhei ou estudei durante a semana, e tocava aos finais de semana. Comecei aos 16 e fui até os 40 assim”, relata.

“Mesmo quando eu tenho um tempo livre, não paro nunca de pensar em música. Acredito que para quem é arranjador, para quem é compositor, é importante ter noção de cultura geral, assistir a filmes, ler livros, buscar alguma inspiração na arte, porque, às vezes, a gente tem uma ideia com base no que assistimos e transpomos esse momento na hora de arranjar ou de compor, porque música não é só nota, é tentar passar determinado instante no que está sendo ouvido”, explica Nilson, em continuação de entrevista por telefone.

ATIVIDADES – Atualmente, Nilson trabalha na Banda Sinfônica da Cidade do Recife, onde é arranjador e contrabaixista, e no Centro de Educação Musical de Olinda (Cemo), onde exerce a função de regente da banda sinfônica da escola. Hoje, com 52 anos, o músico, mesmo com todo o trabalho, optou por diminuir um pouco o ritmo nas apresentações aos finais de semana: “Não saio mais muito para tocar, agora, fico em casa fazendo arranjos, porque tenho muita demanda sempre, mas também encontro um tempo para encontrar os amigos, passear no shopping, estar com a família”.

Os dois filhos, Paulo Henrique (20) e Pedro Vitor (24), tiveram a influência paterna para seguir a música. Paulo Henrique, atualmente, é sargento-músico da Marinha, no Rio de Janeiro.

Toca bateria e percussão erudita. Pedro Vitor, embora seja sociólogo, já estudou piano no Conservatório Pernambucano de Música e, de vez em quando, compõe algumas músicas.

Nilson, assim como o filho mais velho, também compõe. Suas obras estão espalhadas em discos do Território Nordestino, da SpokFrevo Orquestra e no CD De sol a sol, cuja-faixa título é uma composição sua para a Orquestra Retratos, dirigida pelo maestro Marco Cesar.

“O trabalho de Nilson é muito bom, rítmico, idiomático. Os arranjos que ele faz, além de serem bonitos, conseguem extrair todo o potencial que os instrumentos têm e proporcionam uma conversa entre esses instrumentos. A gente percebe que ele estudou muito para conseguir essa qualidade, porque a tradição dele é de banda, então, não é o usual que pessoas com essa bagagem arranjem tão bem para orquestras, onde há outra formação instrumental”, destaca o diretor artístico e maestro da OCC, Nilson Galvão Jr.

Confira outras edições