Revista Criança Cidadã - Matérias

Artigo - O Método Suzuki e a inicialização musical infantil

Edição 22 - Janeiro/Abril 2017

- Aline Ananias (Professora de viola da Orquestra Criança Cidadã).

Criado pelo violinista, educador, filósofo e humanista japonês Shinichi Suzuki (1898-1998), o Método Suzuki, conhecido como Método de Educação Talento, teve uma profunda influência sobre a educação musical no Brasil e no resto do mundo, nos últimos 50 anos. Em seu livro Educação é amor, Suzuki baseou a sua abordagem na crença de que “a habilidade musical não é um talento inato, mas uma habilidade que pode ser desenvolvida”, ou seja, qualquer criança que receba uma educação adequada pode desenvolver a habilidade musical, da mesma maneira como as crianças desenvolvem a capacidade de falar a língua materna, e Suzuki acreditava que o potencial de cada criança é ilimitado.

O repertório Suzuki apresenta para cada instrumento uma cuidadosa sequência que vai construindo blocos de desenvolvimento musical e técnico. Este repertório gera uma força motivadora, já que os estudantes querem tocar a música que ouvem outros estudantes tocarem. Originalmente criado para violino, agora se estende a todos os instrumentos de cordas friccionadas (viola, violoncelo e contrabaixo), violão, flauta doce e transversa, piano, voz, órgão, trompete e harpa. Poderíamos dizer que a frase utilizada por Suzuki “quanto mais cedo se iniciar o estudo musical melhor” antecipou as ideias que a neurociência tem descoberto nos últimos anos, graças ao avanço da tecnologia. Os primeiros anos são cruciais para o desenvolvimento de processos mentais e da coordenação muscular das crianças. A infância é também quando a capacidade auditiva se desenvolve ao máximo (durante os anos de aprendizagem do idioma), sendo o período excelente para estabelecer a sensibilidade musical. A audição é o sentido mais antigo que possuímos, pois é o primeiro a se formar intrauterinamente: começa na quarta semana de gestação, amadurece no quinto mês, e o ouvido é o único órgão sensorial a atingir completa diferenciação e tamanho adulto, mais ou menos na metade do desenvolvimento fetal.

Os estudos da neurociência apontam para a infância como um período propício para o desenvolvimento do cérebro. Tudo indica que, do nascimento aos 10 anos de idade, o cérebro da criança está em pleno desenvolvimento e apresenta as melhores “condições” de aprendizado, as chamadas “janelas de oportunidades”. As conexões do cérebro infantil dão origem aos diversos sistemas do neurodesenvolvimento, que, por sua vez, auxiliam na formação das diversas inteligências.

O hábito de cantar e dançar com bebês e crianças, está presente em praticamente todas as culturas do mundo; auxilia no aprendizado musical, no desenvolvimento da afetividade e socialização, e também no progresso da aquisição da linguagem. Aprender a tocar um instrumento reorganiza diversas áreas cerebrais, como, por exemplo, as áreas motoras, o corpo caloso e o cerebelo. A música também tem influência sobre nosso estado emocional, sendo que os estudos sobre o poder da evocação afetiva da música são bem recentes.

O segundo ponto que diferencia o Método Suzuki dos métodos tradicionais é que este se baseia enormemente na relação cooperativa entre professores, pais e alunos dentro de um ambiente agradável, mas disciplinado. Por isso, para assegurar uma experiência agradável e satisfatória, os pais devem se comprometer a proporcionar um apoio entusiasta quando a criança estiver aprendendo a tocar um instrumento musical. A criação de atividades envolvendo pais e familiares na escola (coral, sensibilização musical) aumenta em mais de 50% o desenvolvimento técnico e musical da criança.

Aprender música à “maneira Suzuki” é uma experiência repleta de diversão e jogos. Para um pai inexperiente, ou profissionais que não estejam familiarizados com o método, a diversão e os jogos disfarçam um elemento muito importante, o trabalho, já que a “Educação do Talento Suzuki” é considerado um inovador processo de aprendizagem – diversão e disciplina caminham de mãos dadas. Trabalho e disciplina são, certamente, decisivos no desenvolvimento da autoestima e independência das crianças, e necessários para se chegar a qualquer objetivo, tanto em música quanto em outros campos.

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