Revista Criança Cidadã - Matérias

Ensino - Ensino musical, socialização e autoestima

Edição 22 - Janeiro/Abril 2017

Docentes da Fundação Getulio Vargas publicam estudo sobre os benefícios da educação musical como atividade inclusiva, após análise a 23 projetos sociais no país.

- Paula Passos

1976. Um acidente de avião com músicos da Universidade Central da Venezuela marcaria a vida de Paulo Roberto Motta, professor titular da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas. Ele estava no ar, a caminho dos Açores, quando um avião a sua frente caiu. Ao aterrissar, ele soube do ocorrido. Muitos anos depois, a vontade de estudar projetos sociais que ensinavam música clássica surgiu e, em 2016, ele e Valentina Schmitt, doutora em Administração pela Ebape/FGV, publicaram na Revista de Gestão dos Países da Língua Portuguesa o artigo Valores gerenciais, carreiras profissionais e inclusão social: o aprendizado de música clássica em comunidades carentes.

O trabalho mostra como pessoas excluídas socialmente podem ter mais chances de sucesso em carreiras profissionais em grandes organizações, através do aprendizado de música clássica. A análise leva em consideração as percepções sobre o êxito dos projetos na facilitação de ascensão social e na redução do sentimento de exclusão. De acordo com a pesquisa, os jovens beneficiados ganham uma nova perspectiva sobre si mesmos, têm a autoconfiança e a autoestima melhoradas, estão mais dispostos a esperar que os benefícios de longo prazo apareçam, podendo ainda ter um novo equilíbrio entre os valores da competição e da cooperação.

Para os pesquisadores, “parte das crianças, sobretudo os mais pobres, iniciam os estudos carregando um sentimento de rejeição e de confinamento na pobreza. Sentem-se excluídas das oportunidades oferecidas às crianças de outras esferas sociais. A perspectiva da mudança se concentra basicamente em alterar o sistema de oportunidades por meio de intervenções programadas ao redor do ensino e da prática musicais coletivos”.

Grande parte das comunidades estudadas utiliza como base El Sistema, um modelo didático musical, criado na Venezuela, pelo economista e político José Antonio Abreu. O modelo consiste num sistema de educação musical público com acesso gratuito e livre por crianças e jovens de todas as classes sociais. Na Venezuela, ele é gerido por um órgão estatal, responsável pela manutenção de 125 orquestras e coros e pela educação de mais de 35 mil estudantes, com 180 núcleos espalhados pelo país.

“O objetivo deste artigo é mostrar aos dirigentes empresariais e ao poder público que projetos desse tipo são válidos. Por isso, divulgamos numa revista voltada para o mercado e não apenas para o mundo acadêmico. Queremos ajudar iniciativas a buscarem recursos, através dos resultados de nossa pesquisa”, explicou Paulo Motta. O administrador acrescenta ainda que diferente de projetos (também válidos) voltados ao futebol ou à música popular, por exemplo, ações na área de música clássica proporcionam uma disciplina a longo prazo, sem pular etapas de estudos, devido a uma formação mais extensa e com retorno financeiro mais demorado.

Os dados foram obtidos através de cerca de 80 entrevistas realizadas em dois anos de pesquisa, financiada pela FGV, com professores, assistentes sociais e outros profissionais que trabalham em 23 projetos de música clássica pelo Brasil orientados a jovens de bairros pobres. O próximo passo do estudo é entrevistar exemplos de sucesso, de pessoas que vieram desses projetos e, hoje, conseguem ter projeção e espaço no mercado de trabalho, seja ligadas à música ou a outras áreas.

Paulo é admirador do trabalho da Orquestra Criança Cidadã e deseja agregar informações do projeto, nessa próxima fase da pesquisa: “gosto muito do projeto de vocês e, infelizmente, não tivemos como visitá-lo nesta primeira etapa do trabalho, mas espero que a gente consiga nessa próxima fase, inclusive, entrevistando alunos que hoje já estão fora do país, por exemplo”.

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