Revista Criança Cidadã - Matérias

Ensino - Educação elementar e ensino musical, lado a lado

Edição 22 - Janeiro/Abril 2017

Reforço escolar tem ajudado os alunos da Orquestra e do Espaço Cultural e Esportivo Criança Cidadã na construção de novas possibilidades.

- Houldine Nascimento

É a partir da educação que o indivíduo se desenvolve, passando a ter uma visão ampla do mundo. Sem uma educação de qualidade, o ser humano não progride. Ciente disso, a Associação Beneficente Criança Cidadã (ABCC) implantou um programa de reforço pedagógico para que os jovens alunos possam driblar as dificuldades no aprendizado. A ação – um complemento ao que é trabalhado no ensino regular – funciona nos dois projetos sociais permanentes ligados à instituição: a Orquestra Criança Cidadã (OCC) e o Espaço Cultural e Esportivo Criança Cidadã (ECECC).

Desde 2013, a pedagoga Daniela Santos é responsável pelo reforço escolar no Núcleo da OCC no Coque. Foi através do Colégio Motivo, escola apoiadora da OCC, que ela passou a integrar o projeto. “Eu cheguei a estagiar no Motivo. Foi quando o coordenador de lá me indicou para trabalhar na OCC. Conversei com Dr. Nildo Nery e Dr. Targino e, no dia seguinte, já estava em sala de aula”, revela.

De segunda a quinta, alunos de 06 a 16 anos participam de uma série de atividades que os auxilia no desenvolvimento da capacidade cognitiva, como produção artística, jogos, leitura e exibição de filmes. Há uma liberdade para abordar temas, conforme a necessidade dos educandos. “Diferentemente do ensino regular, posso montar livremente o plano de estudo. Já houve dia em que preparei uma aula e a necessidade dos alunos era outra, aí mudei o que estava programado”, comenta a professora, que foi eleita a melhor educadora de 2016 no Núcleo do Coque.

Português e Matemática são as duas disciplinas mais requisitadas, nas aulas de reforço. “Trabalho muito Matemática porque alguns alunos têm uma dificuldade enorme e não conseguem ler problemas de divisão, multiplicação e subtração. Também faço grupos para estimular o aprendizado em conjunto. Tento evitar ações mecânicas, como ir ao quadro sempre, porque isso não dá certo”, diz. Entre suas iniciativas, destaca-se a criação de um cantinho de leituras, que proporcionou a aquisição de mais de 30 livros.

Aluna do nono ano da Escola Poeta Manuel Bandeira, na Ilha do Leite, a violinista da OCC Talita Maria, 14 anos, almeja ser controladora de voo. “O reforço ajuda nesse sonho, é essencial porque a gente precisa de alguém que nos ajude além da escola. E se for um bom profissional como a professora Daniela, isso faz com que nosso desempenho seja maior na escola também”, pontua.

No Núcleo da Orquestra Criança Cidadã no Ipojuca, a professora Kelly Souza Leão é quem conduz o reforço pedagógico de 100 alunos, distribuídos em oito turmas nos turnos da manhã e da tarde. “Como pedagoga, procuro ter uma visão ampla para que possa trabalhar de uma forma atrativa para as diversas idades”, ressalta.

Pós-graduada em Psicopedagogia, Kelly leciona para jovens dos 10 aos 18 anos. “Além do reforço escolar, tenho um olhar diferenciado por ser psicopedagoga, então friso muito nas dificuldades de aprendizagem, a partir da singularidade deles.” Para superar as adversidades, a professora busca trabalhar em conjunto com psicólogos e professores de outras disciplinas.

Operações matemáticas e o aprendizado da língua portuguesa também estão entre as principais dificuldades apresentadas pelos estudantes. Assuntos como sustentabilidade entram no foco das rodas de conversas entre os alunos, com o incentivo ao plantio de mudas. Segundo Kelly, um dos momentos de maior empolgação dos educandos é quando ocorre o Show de Talentos, uma iniciativa sua em que os jovens preparam apresentações temáticas com fantasias e jogos coletivos.

Quanto à relação entre OCC e escola, há uma preocupação constante da coordenação pedagógica em saber o andamento das atividades trabalhadas no ensino regular. “Incentivamos os alunos a levarem para a Orquestra os materiais escolares para que possam fazer as atividades lá. Também disponibilizamos materiais como cartolina, xerox e acesso à internet. Temos essa visão para além da música, tentando inseri-los num contexto global”, assegura.

NA SEDE DA ABCC – No Espaço Cultural e Esportivo Criança Cidadã, no bairro do Cordeiro, Zona Oeste do Recife, cerca de 150 educandos, de 06 a 16 anos, aprendem diversas atividades, como judô, informática e música. O projeto também dá atenção ao reforço escolar, através de uma equipe formada por duas pedagogas e duas estudantes de Pedagogia.

Entre as pedagogas profissionais, está a professora Adriana Maria, que trabalha no ECECC desde 2012. Para ela, a interdisciplinaridade com a música e o esporte ajuda a desenvolver o trabalho. “A música tem um fator muito importante na parte comportamental, de relacionamento com os demais alunos. Temos uma relação muito boa com as professoras de música, muitas vezes elas precisam do nosso apoio. E outro parceiro importante é o judô, com atletas que estão se destacando. Há um intercâmbio para saber quem está correspondendo ou não”, conta.

Já a professora Lucilene Silva atua no projeto desde 2011. Com a experiência obtida durante esses anos, conseguiu detectar problemas enfrentados pelos alunos e como contorná-los. “Alguns adolescentes chegam alfabetizados, outros são tímidos e não têm coordenação motora para criar. Por isso, procuramos trabalhar o ser social deles para que possam construir mais”, relata.

A abordagem de temas da atualidade ajuda na formação dos jovens que vivem em comunidades carentes. “Eles se apegam de uma forma a nós porque estamos ali escutando e eles vão levar o que aprendem para o futuro. É muito importante saber que vou fazer parte da vida deles”, comenta Lucilene. “Através dos estudos, você pode chegar a qualquer lugar. Fazer parte desse projeto mostra essa possibilidade, uma ponte que está sendo oferecida. Nós, como educadores, nos transformamos também. Começamos a aprender com o trabalho”, reforça Adriana.

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