Revista Criança Cidadã - Matérias

Perfil - Do piano aos pentagramas

Edição 22 - Janeiro/Abril 2017

Residente há mais de uma década nos Estados Unidos, a pianista Syrlane Moura transitou para os caminhos da composição como forma de continuar ligada a sua cidade natal.

- Paula Passos

“Essa aqui vai ser pianista”. Uma previsão que se tornou realidade. O pai da pianista Syrlane Moura, 37, pronunciou a frase assim que ela nasceu e os caminhos foram direcionados para que o anúncio se concretizasse. Desde muito cedo Syrlane recebeu a influência do pai e da mãe, que sempre ouviam música erudita em casa. Aos 6 anos, começou a estudar Teoria Musical no Conservatório Pernambucano de Música (CPM) e, aos 7, iniciou as aulas de piano com a professora Hilda Nobre.

“Gostava muito do piano, mas confesso que as aulas de Teoria Musical eram as minhas preferidas. Enquanto muitos dos meus coleguinhas detestavam ditado melódico e rítmico, eu não via a hora de chegar à aula e fazer esses exercícios”, afirma a pianista, em entrevista por e-mail.

Syrlane atribui o amor pela Harmonia e pela Teoria Musical aos bons professores que teve no CPM, como Paulo Barros. Ela e a irmã, a violinista e professora da Orquestra Criança Cidadã Susan Moura, tocavam desde cedo na Igreja Assembleia de Deus em Santo Amaro (Recife) e, segundo ela, essa vivência facilitou o aprendizado para criar arranjos (versões de uma música para determinada instrumentação) e fazer transposições (escrita de uma música para uma tonalidade diferente da original).

UNIVERSIDADE - Em 1999, Syrlane prestou vestibular para a licenciatura em Música na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Estudou na instituição por dois anos e meio e se mudou para os Estados Unidos com Susan. Há 14 anos vivendo naquele país, a pianista concluiu o bacharelado em Teoria da Composição na Universidade de Campbellsville, Estado do Kentucky, em vez de seguir a licenciatura.

“Foi uma mudança importantíssima na minha vida. Estudei por mais três anos e me mudei para Dallas, onde finalmente terminei meu bacharelado pela Dallas BaptistUniversity. Daí segui os estudos de composição com o mestrado pela Southern MethodistUniversity, também em Dallas, e me formei em 2012”, conta. Atualmente, a compositora mora em Nova Iorque com o marido, Eduardo de Albuquerque, e continua compondo e realizando concertos pela cidade.

Para ela, a música erudita nos Estados Unidos é mais respeitada e apoiada do que no Brasil porque a exposição ao clássico vem desde cedo. “Vejo que há mais investimento financeiro e mais oportunidades de exposição para os músicos aqui. A maioria das escolas de primeiro e segundo grau tem aulas de Música na grade curricular; os alunos aprendem a tocar instrumentos e escolhem participar de grupos como: coro, orquestra, banda sinfônica, por exemplo,”, explica.

O governo também tem um papel forte nas artes e, de acordo com a compositora, investe bastante em programas degratuitos, fazendo com que a população conheça e aprecie a música erudita, ao mesmo tempo que dá oportunidade para músicos se apresentarem. Entretanto, Syrlane destaca sua admiração pelos colegas músicos brasileiros, que desempenham um trabalho de boa qualidade com pouco incentivo.

REGRESSO - Num futuro próximo, Syrlane e o marido pretendem voltar a morar no Brasil. “Por mais que os Estados Unidos nos tenham dado tanta coisa boa, o Brasil é a nossa casa. Desde o primeiro ano que morei aqui, sempre pensei em voltar a morar no Brasil”, diz. Essa relação estreita com o país de origem incentivou a pianista a escrever uma obra para a Orquestra Criança Cidadã, que foi estreada em março no Recife, no 1° Concerto Oficial da Temporada 2016, e teve o terceiro movimento executado no concerto da OCC na Igreja de Nossa Senhora da Pompeia, em Nova Iorque (vide página 23).

A ideia para a composição, intitulada, Três movimentos para cordas e percussão, foi do maestro Nilson Galvão Jr., regente da OCC. Os dois se conhecem desde a infância e estudaram juntos no Conservatório Pernambucano de Música e na CampbellsvilleUniversity. “Já compus uma peça para ele, para cello e piano, e sempre tivemos essa parceria musical. Nilson veio com a proposta de que eu escrevesse uma peça para a Orquestra, o que achei fantástico, porque sempre acreditei no poder transformador da música”, lembra.

Syrlane conta que demorou um pouco para decidir o que compor. “Queria que fosse algo inteligente e criativo, com uma veia nordestina forte, mas que fosse acessível e divertido para os meninos e as meninas”, explica. A compositora começou pelo segundo movimento, Saudade, no qual há uma mistura de bossa nova e baião. O primeiro movimento, chamado Folguedo, usa o ritmo de caboclinhos. “Pensei nele como uma grande festa, a abertura de toda a obra”, afirma. No terceiro e último movimento, Recifando, Syrlane usa o frevo, Patrimônio Imaterial da Humanidade.

Atualmente, Syrlane compõe uma peça para violino e piano para uma violinista de Hartford e, logo após, começou um duo para violino e cello, encomendado por Paula Bujes e Pedro Huff, professores da UFPE. “Estou bem animada com esses dois projetos. Agora faço parte de uma companhia brasileira de ópera aqui em Nova Iorque. Estamos com um projeto para compor uma ópera para o próximo ano, numa colaboração entre três compositoras brasileiras”, conta. Num futuro próximo, a compositora pretende fazer realizar o sonho de fazer um concerto de suas obras na cidade natal.

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