Revista Criança Cidadã - Matérias

A psicologia como ferramenta para a integração

Edição 21 - Setembro/Dezembro 2016

Através das intervenções psicossociais realizadas pelos setores de psicologia da Orquestra e da Associação, alunos percebem sua importância como indivíduos na sociedade

“Estes garotos, igualmente nascidos em berço humilde, estão fazendo da oportunidade recebida, a força transformadora de suas vidas”. O depoimento do juiz João Rocha Targino na oitava edição da Revista Criança Cidadã, em 2011, já resumia as mudanças alcançadas em cinco anos de atividades da Orquestra Criança Cidadã. O sucesso do projeto traz consigo a ideia ampla de apoio, para além do ensino musical, com aulas de reforço escolar, informática e inglês. O setor de psicologia, por sua vez, colabora para mudanças no comportamento dos jovens músicos e os insere nas atividades com o objetivo de integrá-los cada vez mais.

Desde o início das atividades fundamentais do projeto com a educação musical, no Coque (2006) e no Ipojuca, a questão do apoio psicossocial foi levada em consideração. A psicóloga Manuela Carneiro, que atua no Ipojuca desde a inauguração do Núcleo, em 2014, fala da importância da psicologia para torná-los conscientes do futuro que se aproxima. “Eles vivem numa região onde o nível de desenvolvimento humano é baixo e sem muitas possibilidades. Então, quando entraram na Orquestra, passaram a vislumbrar outras opções e a resignificarem as próprias vidas”, relembra.

Esses caminhos, segundo a psicóloga, não ficam restritos à área musical, poisoutras profissões também vêm à mente deles. A intervenção psicossocial ocorre no Ipojuca, de acordo com Manuela, com o foco na criação do olhar crítico entre os alunos sobre a sua realidade e o que podem fazer de diferente. “Esse tipo de intervenção se sustenta na prevenção, otimização e fortalecimento das potencialidades, sejam elas afetivas, cognitivas ou sociais, contribuindo para o desenvolvimento deles”, explica.

Trabalhando desde fevereiro no Núcleo do Coque, Flávia Félix cita a carência afetiva como a maior característica dos alunos. “Eles buscam carinho e aceitação o tempo todo, daí chegam aqui e vêm buscar acolhimento”, mas faz a ressalva: “os mais velhos raramente procuram, então a demanda maior é dos pequenos”. Entretanto, Flávia trabalha para eliminar a resistência entre os adolescentes que, por algum motivo, não procuram ajuda. A saída encontrada é aliar o trabalho ao dos professores, coordenadores pedagógicos e maestro. “Se a gente não fizer um trabalho interdisciplinar, não conseguimos intervir. Precisamos trabalhar em conjunto com os outros profissionais, estar sempre em sala de aula, independente do estágio dos alunos”, justifica.

Tanto no Coque quanto no Ipojuca, a participação dos pais é considerada satisfatória pelas psicólogas. Mas reforçar a importância dessa união faz-se necessário. Flávia conta que, sem os familiares, a dificuldade é maior: “Quando fazemos um trabalho com uma criança em que a família está presente vemos mudanças significativas”. Além das reuniões mensais com temas específicos, Flávia conta que vem percebendo que os pais têm trazido progressivamente demandas individuais e revela a ideia de atendê-los semanalmente, com um dia dedicado ao atendimento para familiares.

Entre os trabalhos desenvolvidos nos dois núcleos, estão as atividades em grupo, onde os alunos podem refletir sobre determinada temática em conjunto. “A criança e o adolescente têm o espaço de escuta e a atenção, permitindo que revejam suas crenças e posturas e redescubram suas potencialidades”, elabora Manuela. Outras ações do setor incluem oficinas, plantões psicossociais, orientações aos funcionários e apoio à coordenação pedagógica.

Segundo Manuela, dentre os maiores desafios enfrentados pela instituição como um todo, está a forma que os alunos se relacionam com a comunidade externa, para que não sejam influenciados negativamente. “Os avanços da tecnologia refletem diretamente na vida dos adolescentes e podem trazer problemas, como o bullying e a exposição indevida na internet. Assim, o trabalho também tem sido direcionado a isso”, pontua.

NA SEDE DA ABCC — A psicóloga do Espaço Cultural e Esportivo Criança Cidadã, Jane Marinho, atende a cerca de 150 crianças e adolescentes, entre 6 e 16 anos, desde meados de 2015 e, da mesma maneira como as psicólogas da OCC, percebe uma evolução no comportamento apresentado entre eles. “Eram meninos que antes, quando se fazia um atendimento grupal ou individual, apresentavam uma dificuldade para se integrarem e ouvirem, ou fixar atenção no falar e reproduzir vontades”, compara.

Assim como ocorre na OCC, Jane aposta na ludoterapia para atingir mais facilmente os alunos mais novos, de forma que consigam se expressar através das brincadeiras, desenhos e jogos propostos. “A leitura é feita não só em base nos desenhos, mas também na escuta e no relato dos pais”, explica. Os adolescentes atendidos também se colocam através de jogos que trabalham a emoção ou conversas com a psicóloga.

Ir de encontro ao determinismo do lugar onde vivem, com a violência e as drogas, é para Jane o que a psicologia pode fazer para os atendidos pelo projeto. “A gente trabalha a questão da aceitação da criança como pessoa que tem o seu valor, aprendendo que podem fazer a diferença na família e na comunidade”, expõe. “A música, o judô e outras atividades daqui são instrumentos disso”, complementa.

Nas próximas edições da Revista Criança Cidadã, vamos falar das aulas de reforço escolar, língua inglesa e informática, na Orquestra e na ABCC.

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