Revista Criança Cidadã - Matérias

Maestro Formiga: uma explosão criativa em pessoa

Edição 21 - Setembro/Dezembro 2016

Compositor, arranjador, instrumentista, regente, amante da cultura popular. A vida musical de Ademir Araújo é marcada pela defesa do ensino musical em larga escala

Uma combinação expressiva entre sons e ideias, que pode ser caracterizada como algo mais além. Uma energia acumulada que se transforma em forma de música. Estamos falando do maestro Ademir Araújo. Compositor, instrumentista, arranjador e regente, Ademir, mais conhecido como Maestro Formiga, é o personagem da edição n° 21 da Revista Criança Cidadã. Formiga nasceu no Recife, no bairro do Derby, em 15 de outubro de 1942. Filho de Hemetério de Araújo e Maria Souza Araújo, perdeu o pai ainda criança, aos 7 anos de idade e foi criado na comunidade da Ilha do Joaneiro, uma das mais pobres do Recife à época. A primeira linguagem artística a encantar o jovem foi o desenho. Entretanto, aos 14 anos, o som marcante das bandas escolares no desfile de Sete de Setembro pegou-o pela mão lhe fazendo mudar de rumo.

O fascínio dos ritmos levou o garoto a querer conhecer a música mais profundamente. Decidiu então tomar aulas com o professor José Gonçalves de Lima, que o encaminhou para ser instruído pelo maestro Edson Carlos Rodrigues. “Eu passei quase um mês para aprender a escala dó, ré, mi. Era muito desafinado. Mas essa dificuldade e o incentivo do maestro Edson me deram força para não desistir”, contou Formiga, cujo primeiro instrumento que aprendeu a tocar foi o sax-horn, também chamado de saxotrompa, ou “trompa cachorrinha”. Sempre determinado, Formiga buscava conhecimento em livros teóricos e com outros professores. No Conservatório Pernambucano de Música, estudou Teoria e Solfejo, comOtávio Prazeres, e Harmonia, com Horácio Vilela e Severino Revoredo. Também contou com a ajuda do maestro Dudu para aprender a base musical do frevo e com o padre Jaime Diniz para entender sobre contraponto, fuga e música sacra.

Aos 16 anos, em 1958, Ademir vivera sua primeira ousadia musical, submeteu-se ao concurso para integrar a Banda Municipal da Cidade do Recife. Com apenas um ano de estudo, mas muita força de vontade, concorreu com mais de 100 músicos experientes. Com sua “cachorrinha”, ele não se abalou com a concorrência e conquistou o 26 lugar, garantindo a vaga. A aprovação foi o pontapé inicial para a sua carreira na música. Entrou no grupo tocando sax-horn, depois passando para o saxofone. O primeiro salário recebido foi gasto com a compra dos três volumes do Grande tratado de instrumentação e orquestração modernas, de Hector Berlioz (1803-1869), que viria a ser a sua bíblia musical.

Para Formiga, além de um prazer, a música era sua fonte de renda. No período carnavalesco, ele passava dias fora de casa, tocando em agremiações, manhãs de sol e matinês. “Eu saia de casa na sexta-feira e dizia a minha mãe: Não se preocupe comigo não, eu só volto na quarta. Tocava numa manhã de sol, quando terminava, eu ficava em algum restaurante perto, tocando algumas músicas. Nesse intervalo o dono do estabelecimento gostava do som e me oferecia um almoço. Aí eu já economizava o dinheiro dessa refeição. Saía de lá e ia tocar numa matinê a tarde. Fazia a mesma coisa e ganhava uma sopa para jantar. E à noite seguia para tocar em algumas agremiações, como Lenhadores, Batutas de São José, Vassourinhas. O carnaval todo era assim. Quando terminava, dava dinheiro para a minha mãe fazer a feira e o que sobrava, comprava livros, discos e outras coisas para mim”, contou, entre risos, o maestro.

DE INSTRUMENTISTA A REGENTE — O apelido de Ademir Araújo surgiu ainda na infância. Por ser irrequieto e franzino, um colega de classe o comparou com uma formiga e, desde então, passou a ser chamado assim. Essa inquietação acompanha o maestro até hoje, que sempre está pesquisando, lendo, compondo e pensando. Nos anos de 1961, 1965, 1967 e 1968 foi vencedor dos concursos de carnaval promovidos pela Prefeitura Municipal do Recife, na categoria maracatu. Já as composições Frevo na tempestade, Pra frente frevo, Aí vem os palhaços e E o frevo continua… o consagraram como ícone nesta modalidade musical.

Encorajado pelo amigo e trompetista da Banda Sinfônica Gilberto Pimentel dos Santos, o maestro inscreveu duas de suas músicas em um concurso da Prefeitura do Recife. As peças eram Prelúdio de maracatu e Frevo no ano 2000. No momento de apresentar o maracatu, Formiga não sabia que iria precisar de um intérprete. Para poder participar da competição, ele teve que arrumar alguém que de última hora cantasse sua música. “Eu estava naquele desespero para achar uma pessoa, quando vi Claudionor Germano no piano. Ele nem era famoso ainda. Cheguei para ele, expliquei a situação e pedi ajuda. Apesar do corre-corre, ele ensaiou rapidamente a letra e ficamos com o segundo lugar do concurso. Concorremos com grandes nomes como Nelson Ferreira e Jaime Griz. Nelson foi o primeiro colocado”, lembra.

Além da Banda Municipal do Recife, Formiga atuou também na Banda da Polícia Militar de Pernambuco, onde desenvolveu suas habilidades com composições e arranjos. Durante a década de 1970, o músico atingia um novo estágio na carreira, vivenciando novas experiências como regente e diretor musical. Sob a sua coordenação, a Banda Municipal do Recife, venceu o Festival de Frevo dos Diários Associados com o frevo de rua Alô Recife. Na mesma época, compôs a Grande Abertura do Diário de Pernambuco, para Orquestra Sinfônica, Banda Sinfônica e Coro, que foi executada nas comemorações dos 150 anos do jornal, em 1975.

“Esse dia foi uma correria só, pois eu iria reger cinco bandas militares, a Orquestra Sinfônica do Recife e o Coro Sinfônico. Todas ao mesmo tempo para executar a minha composição. Os músicos não ensaiaram a peça. No dia, cada um pegou sua partitura e começou tocar e eu ficava tentando fazê-los entrar certo, já desesperado. Ao final, todos aplaudindo de pé, os diretores do jornal já tinham inclusive feito a gravação e estavam elogiando a obra. As pessoas achavam que a peça era daquele jeito que estava sendo tocada, mas eu escrevi e sabia que não era. Essa é uma peça que ainda pretendo gravar do jeito que eu quero”, relembrou Formiga.

Nessa época, Ademir já deixava um pouco de lado o instrumento para se dedicar à regência. Foi orquestrador do Projeto Aquários, em 1977; participou como regente e compositor do Projeto Música Popular do Nordeste e como regente da Banda Sinfônica Juvenil Pernambucana, em 1978. Entre 1970 e 1981, o maestro Formiga assumiu uma postura mais política para lutar por melhorias para a cultura pernambucana, tornando-se assessor de música da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife.

CARNAVAL E ARMORIAL — Sempre ao lado das agremiações carnavalescas, regendo e auxiliando no que fosse necessário, Formiga era quase onipresente durante o carnaval, participando de mais de 14 agremiações, como: Coqueirinho de Beberibe (primeiro grupo carnavalesco que fez parte); Batutas de São José; Madeira do Rosarinho; Lenhadores; As Pás; Vassourinhas, e muitos outros. Em meados de 1975, o cenário cultural pernambucano vivia a efusão do Movimento Armorial, idealizado pelo escritor Ariano Suassuna. Para imprimir o propósito de criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular, na música, Ariano criou a Orquestra Popular do Recife, inicialmente regida por Maestro Duda. A partir de 1977, a direção artística e musical foi confiada a Ademir Araújo. Em funcionamento até os dias atuais, a orquestra de metais e palhetas é pioneira na pesquisa e transcrição de gêneros tradicionais, como maracatus, cocos, cirandas, reisados, caboclinhos, além do frevo.

Em 1979, o jornalista Leonardo Dantas teve a ideia de levar o frevo aonde o povo estivesse e lançou a Frevioca: uma orquestra volante, com 32 músicos, sob regência de Maestro Formiga e com frevos de Capiba cantados por Claudionor Germano. Enquanto isso, o trabalho com as bandas, gravações de discos e produções musicais continuava. Formiga foi produtor musical e regente do disco Carnaval do Nordeste nº 02 (Mocambo), em 1983. Em 1984, foi premiado pela Funarte por duas composições autorais em evento que visava inventariar “O repertório de ouro das bandas de música do Brasil”. Entre os anos de 1984 a 1991, foi maestro da Banda da Sinfônica da Cidade do Recife (a mesma Banda Municipal, agora sob outro nome). E no ano de 1988, atuou como diretor musical e regente do IX Encontro Nacional do Frevo e do Maracatu (Frevança).

Nas décadas de 90 e 2000, o maestro começou a excursionar por outros sons. Fez parcerias com músicos contemporâneos e mostrou que não há limites para a criatividade. Ademir Araújo participou de uma produção artística com o músico remanescente do movimento ManguebeatRogerman. Também integrou grandes parcerias com Silvério Pessoa, Banda Eddie, Mundo Livre S.A, Nação Zumbi, a banda de heavy metal Sepultura e outros. Atualmente, Formiga está escrevendo uma obra para a Orquestra Criança Cidadã, intitulada Crianças, sonhos e canções. “A peça usa como base as canções tradicionais do Soldado, da Infantaria e do Expedicionário. Estou em fase de revisão. A ideia é fazer um agradecimento ao Exército por apoiar e acolher em suas instalações um projeto tão rico como a Orquestra Criança Cidadã. Também pretendo que a minha composição incentive outros quartéis a terem essa mesma iniciativa, pois a música é tudo. Através dela podemos ensinar disciplina e educar a criança para a vida”, finaliza.

Confira outras edições