Revista Criança Cidadã - Matérias

A parceria mais duradoura

Edição 21 - Setembro/Dezembro 2016

Exército Brasileiro incentiva as atividades da Orquestra Criança Cidadã desde a criação do projeto e garante organização, disciplina e segurança a alunos e funcionários

Considerando os serviços prestados à nação, a desvinculação político-partidária, a preparação e formação rigorosa de seu quadro de elite, e a eficiência e racionalidade do modus operandi do Exército Brasileiro, é pouco compreensível que a atuação social dessa força armada mal seja divulgada pelos grandes meios de comunicação de massa. Há tabus em jogo, certamente, mas também existem fatores midiáticos a se ponderar: o Exército raramente está envolvido em temas da ordem do dia dos cadernos de política, economia, esportes e cultura.

Mesmo assim, a presença dos militares terrestres garante uma série de ações importantes em todo o país, eventual ou cotidianamente: a fiscalização da produção e comércio de produtos controlados, como armas e determinados componentes químicos inflamáveis; a execução de obras de engenharia em todo o Brasil, a exemplo da duplicação da BR 101 Norte, do Recife a Natal; o apoio em calamidades públicas, intervenções de pacificação urbana, emergências sociais e campanhas de saúde pública; o combate ao tráfico internacional de drogas; a proteção de fronteiras; a distribuição de água e perfuração de poços no Nordeste; o apoio a comunidades indígenas amazônicas, entre outras.

Mais discreto ainda, mesmo para quem conhece a Orquestra Criança Cidadã, é o crucial apoio institucional que o Exército direciona ao projeto, a começar pela permissão para uso do próprio território, já que a sede da OCC se situa no 7° Depósito de Suprimento, inaugurado em 1992, no bairro recifense do Cabanga. O 7° DSup, além disso, supervisiona diariamente a entrada, permanência e saída dos funcionários e alunos e cedeu a mão de obra para a construção das três unidades da sede: a administrativa e as duas de aulas.

O comandante do 7° Depósito de Suprimento, coronel Márcio de Souza Pinheiro, explica que a missão dos depósitos de suprimentos é planejar a aquisição, recebimento, controle de qualidade (que inclui até análise laboratorial), armazenamento, transporte e distribuição das diversas classes de suprimentos para todas as unidades das 12 regiões militares do país, três das quais subordinadas ao Comando Militar do Nordeste: a 6ª, a 7ª e a 10ª. Na 7ª Região Militar, que engloba Pernambuco, Alagoas, Paraíba, e Rio Grande do Norte, o 7° DSup cuida das operações a partir da etapa de recebimento e lida com os suprimentos das classes I, II, III, V, VIII e IX (vide infográfico).

O 7° DSup tem o nome histórico de Depósito Campina do Taborda, por se encontrar nas imediações do lugar onde os invasores holandeses assinaram a capitulação de guerra e devolveram as chaves da cidade do Recife, em 26 de janeiro de 1654, conforme estudo publicado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 2001. Sobre a Orquestra Criança Cidadã, coronel Pinheiro reitera a postura receptiva que vem dispensando a ela desde que chegou à função, em 26 de janeiro de 2015. “A gente lida muito bem com a Orquestra, não há nenhum óbice. Temos dois militares que auxiliam as crianças (vide página 38) e participamos também da alimentação delas. É uma alegria para mim, como comandante, ter um projeto com esse alcance social aqui em nossa unidade”, diz.

O comandante acrescenta que as viaturas (caminhões) frigoríficas e graneleiras da unidade militar rodam 6 mil km por mês e abastecem 44 organizações militares na 7ª RM, que abrigam 15 mil homens. O quartel, que tem sob sua jurisdição a 2ª Companhia de Suprimento, em Aldeia (município de Paudalho), possui um efetivo de cerca de 430 militares que se divide entre a atividade-fim – a operação de suprimentos – e as atividades-meio: gerenciamento de pessoal, inteligência, fiscalização, finanças, licitações e outras.

ORIGEM DA PARCERIA – O nascimento da relação da Orquestra com o Exército vem de uma parceria mais antiga, entre a força armada e o Tribunal de Justiça de Pernambuco, quando o desembargador Nildo Nery, hoje presidente da ABCC, assumiu a presidência do órgão máximo do Judiciário estadual. O magistrado, ao pretender agilizar a execução de processos julgados no Juizado de Execuções Cíveis da Capital (JECC), hoje extinto, convidou o juiz João Targino para coordenar um extenso mutirão de execuções, que recorreu a policiais reformados para atuarem como oficiais de justiça ad hoc (para a finalidade).

João Targino, hoje coordenador geral da Orquestra, relembra o fato: “O JECC estava um verdadeiro caos, um absurdo, e nós precisávamos de um local para remover os bens executados, então procuramos o coronel Paulo Pedroso, comandante do 7° DSup à época. Foi um trabalho muito exitoso, que virou notícia até no Jornal da Globo, porque introduzimos um sistema de comunicação aos devedores que foi uma inovação no Brasil, por utilizar oficiais de justiça ad hoc para a entrega de mandados que continham cinco providências: citação da penhora, intimação da penhora, intimação para audiência de tentativa de conciliação, avaliação do bem e remoção do bem.”

Em 2006, o coordenador geral procurou o então Comandante da 7ª Região Militar, general Maynard Marques de Santa Rosa, para solicitar apoio à instalação da Orquestra Criança Cidadã, que não dispunha de um lugar para funcionar próximo ao Coque, bairro inicialmente atendido pelo projeto. “‘As portas do Exército estão abertas para o senhor’, me respondeu o general Santa Rosa. Daí procurei o coronel Élcio de Freitas Martins, hoje general de brigada, que estava comandando o 7° DSup. Ele quem mandou construir a primeira unidade (edifício) do projeto”, conta Targino.

MILITARES NA ORQUESTRA – Edmilson Barbosa, 31 anos, 1° tenente da reserva formado no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), entrou na Orquestra Criança Cidadã em 2013, tornando-se o quarto gerente administrativo do Núcleo do Coque, o terceiro a ter sido militar, depois dos sargentos Pedrosa e Costa – estes, disponibilizados pelo DSup. O primeiro contato de Barbosa com a Orquestra se deu em uma ação em que a 2ª Companhia de Guardas do Exército Brasileiro distribuiu brinquedos apreendidos pela Receita Federal – por irregularidades fiscais na importação – a crianças de escolas públicas de todas as regiões de Pernambuco, por iniciativa da Orquestra.

“Imagine você encontrar crianças que não têm nem o que comer, muito menos ter um brinquedo”, relembra Edmilson, até hoje emocionado pela participação na Campanha dos Brinquedos 2010, que era comandada pelo primeiro tenente Vinicius Barbosa, irmão de Edmilson. Vinicius, posteriormente, foi chamado por João Targino para trabalhar na Orquestra, mas não pôde aceitar o convite e então indicou Edmilson, que já havia voltado à vida civil e reside a pouco mais de 2km da sede da OCC.

Edivaldo Cavalcanti, gerente administrativo do Núcleo do Ipojuca, também era da 2ª Companhia de Guardas e participou da Campanha dos Brinquedos de 2009. “A gente via uma situação bem precária de alunos. Alguns andavam muito para chegar à escola. Foi muito importante aquela parceria da OCC com o Exército (que durou até 2011)”, recorda. Além de trabalhar com jovens em sua igreja, a Assembleia de Deus, Cavalcanti comandou um projeto social ainda como militar, o Pelotão Esperança, que atendia 30 crianças da comunidade de Roda de Fogo, no Recife, e onde ele desempenhava tarefas semelhantes às do cotidiano da Orquestra: guardar material, acompanhar desempenho escolar, conduzir alunos dentro e fora do quartel etc. “Talvez o Exército seja o maior patrocinador da história da OCC, e que não pede nada em troca”, reforça Cavalcanti.

Ele conta que, durante a visita a uma das escolas da Zona da Mata Sul de Pernambuco atendidas pela Campanha dos Brinquedos, João Targino o observou interagindo com estudantes, ao organizar uma brincadeira de cabo de guerra, e pediu referências ao tenente Vinicius. O convite direto veio em 2011. Porém, o sargento permaneceu na ativa e aguardou um novo chamado, que aconteceu em 2014, quando já estava na vida civil novamente. “Barbosa me ligou e vim de imediato. A orquestra mudou minha vida, minha rotina. Vivo em função de fazer o bem para os alunos da OCC”, diz Cavalcanti, que acorda todos os dias às cinco da manhã e sai de Casa Amarela para o município de Ipojuca, passando pelo 7° DSup.

O maestro Nilson Galvão Jr. pretendia se dedicar ao curso superior, mas foi convocado para cursar o CPOR (cujo hino, a Canção do CPOR, é de autoria de Cussy de Almeida, primeiro diretor artístico da OCC, com letra de Reinaldo de Oliveira) e entrou na turma de Engenharia no ano 2000, enquanto pagava disciplinas do bacharelado em Música na Universidade Federal da Paraíba. Nilson tocava violoncelo fardado nas festas da unidade militar, ficando conhecido pelos colegas como “maestro”, e acabou mudando a visão sobre a vida militar. “As pessoas mais preparadas que conheci até aquela época eram do Exército. A partir daí, comecei a me preocupar com o conceito de liderança, pois o tipo de liderança mais difícil de exercer é o de ser líder de seus pares”, conta.

PROJETOS SOCIAIS DO EXÉRCITO – Três grandes projetos sociais internos do Exército Brasileiro são pouco conhecidos no Nordeste. O Projeto Soldado Cidadão oferece cursos técnicos a recrutas, para capacitação tanto ao serviço militar quanto à volta para a vida civil. O Programa Calha Norte realiza obras estruturantes, como a construção de rodovias, portos, pontes, escolas, creches, hospitais, poços de água potável e redes de energia elétrica. Por fim, o Projeto Rondon beneficia os municípios selecionados com o envio de professores e alunos universitários de diferentes áreas do conhecimento para auxiliar na melhoria da qualidade de vida das comunidades e no aumento da eficiência da administração municipal.

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