Revista Criança Cidadã - Matérias

Infância e Cidadania

Edição 01 - Abril/Maio 2010

A celebração dos dez anos do projeto Criança Cidadã é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho para os idealizadores, e um convite à reflexão. Um dos mais bem-sucedidos projetos sociais para a infância e a juventude no Brasil, o Criança Cidadã ganhou rápida projeção internacional a partir da divulgação do trabalho da Orquestra Criança Cidadã, integrada por meninos e meninas de uma das comunidades mais pobres e violentas do Recife, o Coque. A orquestra tem participado de programas na televisão, e se apresentado em diversos eventos como atração de gala. Até no Palácio do Planalto os pupilos do maestro Cussy de
Almeida já foram, e hoje contam com o entusiasmo do presidente Lula, que cedeu um terreno no Pina para a
construção da sede própria da orquestra, em um espaço com auditório para 600 lugares.

No ano passado, o trabalho social desenvolvido pela orquestra foi agraciado com o Prêmio Nacional Darcy
Ribeiro. Este ano, por iniciativa da Caixa Econômica Federal, uma das patrocinadoras da entidade, encontra-
se entre as 100 instituições que disputam um prêmio das Nações Unidas a ser entregue em outubro, em Dubai, nos Emirados Árabes. O reconhecimento veio junto com a fama de adolescentes excluídos elevados
a artistas, em muito pouco tempo: a Orquestra dos Meninos do Coque foi fundada em agosto de 2006, dentro
das ações da Associação Beneficente Criança Cidadã (ABCC), idealizada e presidida pelo desembargador do Tribunal de Justiça de Pernambuco, Nildo Nery. Para ele, a ABCC busca ampliar a inclusão social, a partir da formação de uma cultura de desenvolvimento. Além de estudar música, os atuais 130 integrantes da orquestra têm aulas de história da arte, inglês, espanhol e reforço escolar de português e matemática. A aposta na educação, portanto, é o segredo do sucesso da orquestra e de todo o projeto, que mantém ainda o Espaço Criança Cidadã Dom Helder Câmara, na comunidade do Caiara, também no Recife. São atendidas cerca de 500 crianças e adolescentes, que recebem alimentação, aulas de reforço escolar, cursos profissionalizantes e podem desenvolver práticas esportivas.

Em concerto comemorativo no último dia 12, um dos meninos, Inaldo Nascimento, violoncelista de 17 anos,
lançou a pergunta que poderia ser feita por qualquer um deles: “Se não fosse este projeto, onde eu estaria hoje?” pergunta que impõe outras, não menos contundentes, ou oportunas, neste mês de aniversário da feliz iniciativa do projeto Criança Cidadã. Por exemplo, por que é tão difícil para os governantes investir em coisas simples como a educação artística em áreas pobres, sobretudo nas grandes cidades, mas também em qualquer município do interior? Ou ainda, por que é preciso que um projeto dessa natureza ganhe os holofotes da mídia para que o Estado e a sociedade prestem atenção devida à realidade obscura e, muitas
vezes, esquecida, da origem desses artistas mirins que, através da música, recuperam a dignidade e a cidadania?

O contraste entre a banalização da violência em áreas degradadas no coração da cidade, como o Coque,
e a música erudita, é tão forte que pode explicar parcialmente o efeito de mobilização proporcionado em curto prazo pelo Criança Cidadã. No vácuo deixado pelo fracasso de políticas inclusivas e pela omissão do poder público, especialmente na área de educação, a iniciativa do desembargador Nildo Nery foi abraçada
por várias entidades, entre as quais o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. E para tocar o projeto
da orquestra, nada mais apropriado do que a figura do maestro Cussy de Almeida, um colaborador que lhe
emprestou sensibilidade e talento.

A música que prenuncia a cidadania promove uma invasão pacífica, benigna, sobre um cenário de caos,
miséria e desamparo. A vida ganha outro sentido – ou algum sentido onde antes não havia nenhum. O mundo é visto com outros olhos, menos ressentidos, menos angustiados, e a visão que vem da instrução

musical e dos valores de uma orquestra improvável enche de esperança cidadãos destinados a trajetórias desafortunadas – como o jovem Inaldo, cujo destino agora se funde ao som do violoncelo.

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