Revista Criança Cidadã - Matérias

Formando músicos e cidadãos no Coque e em Ipojuca

Edição 21 - Setembro/Dezembro 2016

O encontro de José Ademar Teixeira Rocha com o violino não foi concomitante ao início dos estudos musicais, tampouco resultado de um acaso. Sua história com a música é justificada, segundo ele próprio, pela ação de Deus. Nascido em 1961, em Itapipoca, Ceará, foi morar em Fortaleza aos 8 anos de idade, no bairro humilde da Barra do Ceará. Lá, em 1973, ingressou numa banda de metais, e tocou trompa, trombone e barítono.

A história o faz lembrar do copo de leite e cachorro-quente oferecidos pelo projeto social do Serviço Social da Indústria (Sesi). “Deus vai guiando a gente. A ida para a banda foi o início, embora o motivo tenha sido o lanche”, diz aos risos. Também pelo Sesi, num projeto de cordas, de 1976 a 1980, Ademar teve a iniciação ao violino, com o professor Alberto Jaffé. Aos 19 anos, começou o bacharelado no instrumento, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde atuou na Orquestra Sinfônica Jovem e foi aprovado para a profissional, da qual hoje está licenciado.

Ainda na Paraíba, em 1987, deu aula na Escola de Música Anthenor Navarro e, no mesmo ano, participou do curso sobre o Método Suzuki, em Pernambuco. Em 1988, implantou a metodologia no Conservatório Pernambucano de Música (CPM). Ademar considera um marco ter conhecido o próprio Shinichi Suzuki, na IX Conferência Internacional do Método Suzuki, em 1989, no Japão. “A paixão pela didática, por dar aula, surgiu de ver os resultados que o método trazia aos alunos”, conta.

No dia em que chegou à Orquestra Criança Cidadã, em 2010, dois alunos estavam saindo. E ele interveio: “Pedi para que ficassem, um ficou e me acompanhou até recentemente”. As lágrimas que interromperam a lembrança foram para Moysés Gonçalves, 21, ex-aluno da OCC assassinado em agosto último. “Era um aluno de ouro, talvez mais uns dias e teria caído a ficha para não ter sido envolvido”, lamenta. Evitar esse destino anunciado é, para o professor, a função de um projeto social como a Orquestra.

Ademar mora em Engenheiro Coelho, interior de São Paulo, dá aulas de violino e viola no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp) e participa da Orquestra Sinfônica, da Camerata e do Quarteto da instituição. Ainda encontra tempo para um projeto social próprio com o violino, beneficiando cerca de 30 crianças. Em Pernambuco, trabalha no CPM e na OCC, ensinando violino no Núcleo do Coque e atuando na supervisão pedagógica do Núcleo do Ipojuca.

No meio da conversa para a Revista Criança Cidadã, Ademar aconselha a aluna de viola Júlia Paulino, 15: “Quando a gente faz o que ama, não cansa. Para dar aula para você, não tenho de pensar, é minha vida, então só doo um pouco dela”. A própria Júlia o define como um pai-professor. A justificativa dele: “Sempre o ser vem primeiro, muitas vezes eles não precisam de uma intervenção técnica, e sim espiritual”.

Dentre os compositores preferidos de Ademar, estão Mozart, Bach, Vivaldi, Dvoák, Grieg e Villa-Lobos. “Não ando tendo horas livres (risos), mas geralmente os escuto no caminho, viajando. Só clássico e às vezes um gospel apurado”, fala. Para ele, a música clássica no Brasil tem muito a melhorar no quesito de apoio às iniciativas de produção artística: “Temos uma defasagem muito grande nas orquestras, por exemplo. Quem está na política deveria abrir mais espaço para as ações acontecerem.” E uma pergunta obrigatória: o que é a música, para o Professor OCC desta edição? “A música é a vida, depois de Deus e a minha família”, arremata.

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