Revista Criança Cidadã - Matérias

Artigo - Saberes para a gestão de grupos musicais

Edição 20 - Maio/Agosto 2016

Uma das coisas que se pode notar enquanto se estuda em um curso regular de música é que, por si só, ele não é o suficiente para se inserir no mercado musical com um trabalho cultural de produção independente. Nesses cursos são enfatizadas, entre outras coisas, a análise, execução e criação musical. No caso da licenciatura, além desses temas são trabalhados conteúdos próprios para a formação de professores.
Esses saberes são suficientes quando o músico tem como seu objetivo profissional se submeter a uma seleção para uma orquestra, participar de uma atividade cultural já estabelecida, ou dar aulas. Esses são exatamente os objetivos da maioria dos alunos de música. O perfil mais conhecido de músicos e artistas em geral é de uma pessoa que escolheu seu ofício por paixão. Para eles, praticamente todo seu tempo e esforço deve ser dedicado à formação artística e tudo deve ser feito com uma única finalidade: o fazer artístico. O fato de o “valor” da arte ser uma coisa tão clara pra eles, mas tão difícil de debater com um “cliente” na hora de negociar um “preço”, faz com que a maioria dos músicos tenham vergonha e insegurança na hora de vender seu trabalho.

Na verdade, “vender seu trabalho”, para um músico, muitas vezes é visto como desviar-se de seu talento e perder sua dignidade artística. O problema, é que na realidade atual, as vagas de trabalho no mercado tradicional de música estão cada vez mais difíceis. Em períodos de crise, o setor cultural é um dos primeiros a sofrer cortes. Assim, os salários se tornam cada vez mais baixos e a oferta de mão de obra qualificada cada vez maior. Com isso, mesmo as pessoas que possuem um emprego garantido, muitas vezes se sentem obrigadas a “fazer bicos” em eventos e procurarem uma renda extra com aquilo que melhor sabem fazer: música!

Para aqueles que pensam fora da caixa, é inevitável a consciência da necessidade de uma formação específica para a gestão da carreira, o conhecimento do mercado e o desenvolvimento de habilidades empreendedoras. O que parece mais contraditório é que artistas desenvolvem algumas das habilidades que são essenciais para o empreendedorismo (como a criatividade, a disciplina e a sensibilidade), mas demonstram tanta resistência ou falta de interesse em empreender.

Por outro lado, muitos produtores ou agentes se aproveitam dessa dificuldade encontrada pelos artistas e terceirizam seus serviços para o cliente final, pagando pouco a quem realmente “faz música” e lucrando por seu trabalho. Ou muitos artistas se promovem cobrando preços muito baixos por seus serviços, ou se envolvem em projetos culturais que pagam pouco, mas o fazem pela arte. Em uma realidade saudável, qualquer produto artístico precisa se preocupar primeiramente com a questão artística e só depois com a questão “produto” ou “serviço”. Alguns produtores não reconhecem as necessidades do artista ou não as priorizam. O que deve ser desenvolvido é uma forma de produção na qual os artistas tenham liberdade artística para preparar um bom espetáculo ou produto, ao mesmo tempo em que o produtor tenha autonomia para resolver qualquer questão fora do palco.

É de extrema importância que um novo grupo tenha bem definida qual é sua identidade. Qual repertório irá executar? Qual público pretende atingir? De quais eventos gostaria de participar? Durante esse processo, todas as pessoas envolvidas devem participar das decisões e planejar a produção executiva. É importante pensar em vários fatores sem os quais nenhum trabalho pode seguir em frente. Alguns deles são investimento inicial, logística, plano de comunicação e marketing e planejamento financeiro.

Certamente, não devem ser esquecidas as questões culturais, sociais, sustentáveis e de acessibilidade em nenhum negócio artístico. Empreender em artes não quer dizer “se vender”. Se as pessoas pagam por uma boa roupa, uma tecnologia moderna ou um bom prato em um restaurante, o artista tem que saber que o seu serviço ou produto cultural também tem muito valor e um preço justo.

Rafaela Fonsêca é bacharel em Violino pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), especialista em Produção e Gerenciamento de Eventos pela Faculdade Senac de Pernambuco, professora de violino na OCC e no programa Orquestrando Pernambuco, do Conservatório Pernambucano de Música (CPM). Já atuou na Sinfônica Jovem do CPM, Orquestra Experimental de Câmara, Camerata de Olinda e Orquestra Jovem de Pernambuco, e atualmente é segundo violino e diretora de produção do Quarteto Encore.

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