Revista Criança Cidadã - Matérias

Cinema - Três exemplos de superação em Os novos meninos do Coque

Edição 20 - Maio/Agosto 2016

A principal função do jornalista é contar histórias. Boas histórias, independente do formato que seja: impresso, vídeo, online. Essa foi a matéria-prima que Felipe Bueno usou para criar o vídeo institucional da Orquestra Criança Cidadã. Um vídeo que conta as trajetórias de Fagner Zumba, João Pedro Lima e Rebeka Maciel. Todos, alunos que tiveram suas vidas modificadas através do projeto que completa dez anos de vida em 2016.

Felipe se interessou pelo audiovisual desde a faculdade e apresentou em seu trabalho de conclusão de curso um documentário sobre a realidade dos surfistas pernambucanos, durante e após o período de incidentes com tubarão. Depois do TCC, aprendeu sozinho a editar e a finalizar as produções que fazia num canal de entrevistas no YouTube e na área do jornalismo esportivo, como uma websérie para o time de futebol americano Recife Mariners e o Circuito Mundial de Surfe de 2015, no Havaí, gravado, editado e publicado através de um smartphone.

Mas trabalhar com uma temática social para o vídeo foi a primeira vez. “Gostei muito da área, já que a gente sempre procura boas histórias para contar - e eles têm de sobra. Além disso, dar voz a pessoas que já superaram tantas dificuldades também é algo especial”, conta Felipe. De acordo com o jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco, o objetivo do curta-metragem é mostrar a mudança que o projeto proporcionou na vida dos meninos, assim como relatar as
experiências dos músicos, passando uma mensagem inspiradora, seja para apresentar o funcionamento da OCC, evidenciar os resultados a quem já a acompanha ou simplesmente inspirar o público.

Durante o processo de produção, Felipe contou com a ajuda de Devanyse Mendes, assistente de comunicação da Orquestra há cinco anos, para a seleção das histórias que fariam parte do vídeo. Mas
além desse apoio, foi preciso saber se os meninos se sentiam à vontade para contar suas vidas diante das câmeras. “Algumas experiências também envolvem traumas, então foi preciso delicadeza para tocar em alguns assuntos - mas todos se mostraram muito fortes. A partir daí, as entrevistas foram marcadas e o roteiro montado de acordo com cada uma delas”, relatou.

Para Felipe, o processo de gravação foi simples, já que os personagens do curta, por já terem se apresentado tanto durante esses anos da Orquestra, estavam acostumados a interagirem com a câmera. Assim, com algumas horas de material bruto, a edição pôde ser contemplada de uma melhor forma. Todo o processo durou cerca de três meses, mas houve mudanças pelo caminho. “Inicialmente, a intenção era produzir três episódios para serem exibidos no canal do YouTube da Orquestra. Mas com essas histórias se entrelaçando e passando por pontos em comum, uma versão com todas juntas se mostrou igualmente interessante. Foram feitos cinco vídeos: um de cada personagem, um curta metragem envolvendo os três meninos e um vídeo institucional - uma adaptação do curta para apresentar o projeto ao público com depoimentos de funcionários, gestores e patrocinadores”, explicou.

ESTÉTICA - Além dos depoimentos dos músicos, a relação entre texto e imagem, tão importante para quem trabalha com audiovisual, ganhou um peso subjetivo em Os novos meninos do Coque. Além de imagens e vídeos antigos para completar o que estava sendo narrado pelos personagens, Felipe precisou de um pouco mais de dedicação para contar a trajetória de Fagner. “A história dele era um pouco mais complicada de se combinar com sorrisos e imagens felizes. Quando ele lembra da tragédia com o irmão (que morreu assassinado), recorri a uma linguagem um pouco mais subjetiva. No período mais triste de suas lembranças, há dois contrabaixos (simbolizando ele e o irmão) intocados - já que sua vida deixou de fluir tranquilamente. No momento em que ele começa a usar a música como um instrumento para seguir em frente, as imagens começam a mostrá-lo interagindo com o contrabaixo”, detalhou.

OUTRAS PRODUÇÕES - Quem também usou a imagem para contar histórias foi Marcelo dos Santos, graduado em Tecnologia em Produção Audiovisual pela Faculdade Metropolitana do Grande Recife. Ele fez dois vídeos para a Associação Beneficente Criança Cidadã. Um deles sobre a Olimpíada Criança Cidadã, evento que reúne escolas públicas estaduais localizadas em áreas de vulnerabilidade social. A tentativa de Marcelo, nesse trabalho, é fugir do formato tradicional do documentário, visando o lado humano de quem participa da Olimpíada. Para isso, foram escolhidos dois judocas da ABCC para representar o que o documentarista pretendia mostrar: Sabrina Ferreira, campeã pernambucana de 2015, e Oséias.

Além do evento esportivo, a música, outro instrumento de transformação, tocada pela Orquestra Criança Cidadã foi utilizada como elemento para valorizar o vídeo. O compositor e músico Nando Cordel também participou da produção dando depoimentos, cantando e mostrando a importância do projeto. Para o vídeo institucional, um formato mais tradicional foi seguido: entrevistas com parceiros do projeto e com as pessoas envolvidas para a realização da Olimpíada. “Todo o processo durou nove meses.
No começo, íamos fazer apenas o vídeo institucional, mas com o começo das gravações, vimos que havia possibilidade de criarmos um outro material sem um formato
tão definido, que foi onde usamos as histórias de Sabrina e Oseias como base”. A formação de Marcelo foi complementada no Instituto de Cooperação Internacional, uma ONG italiana, cuja sede fica em Olinda: “Desenvolvo trabalhos no Instituto desde 2013, com som e imagem, nas mais variadas vertentes: da fotografia ao cinema, sempre com temáticas sociais”.

OSÉIAS SILVA: DO ECECC PARA O BRASILEIRÃO

Um dos personagens escolhidos por Marcelo dos Santos para o documentário O esporte e a música como instrumentos de transformação social é o judoca Oséias Silva, de doze anos. Ele tem cinco irmãos e mora com os pais no conjunto habitacional ao lado do Espaço Cultural e Esportivo Criança Cidadã, no bairro do Cordeiro. Durante a semana, Oséias treina judô nas segundas, terças e quintas, cerca de 3h30 por dia. O menino conheceu o esporte há dois anos no Espaço e já foi campeão do Troféu Luiz Mota, da Copa Nacional de Igarassu, da Seletiva do Brasileiro Regional de Judô, além de 3° lugar no Pernambucano de 2015.

Em outubro, ele viaja até Lauro de Freitas, na Bahia, para competir no Brasileiro de Judô sub 13. “Tô um pouco nervoso ainda. Vou me dedicar muito para tentar uma vitória para mim, minha família e para a Associação”, confessou. Além de judoca, o garoto toca violoncelo. Esporte e música entraram na vida dele em 2014, através das oficinas oferecidas pelo Espaço, onde, desde os seis anos, participa das aulas de reforço e de outras atividades.

O professor Anderson Felipe ensina em escolas da cidade e está no ECECC desde 2013. “Eu comecei um trabalho aqui com os meninos sem saberem nem o que era judô. Hoje, além de Oséias, outros três alunos têm mostrado potencial nas competições”, explicou. No total, cerca de 120 crianças e adolescentes treinam durante a semana. O jovem judoca explicou como era antes do esporte: “Quando eu entrei no judô, eu era levado, não fazia as tarefas, pertubava muito”. Hoje, a realidade é outra.

O pai de Oséias é padeiro; a mãe, dona de casa. Eles acompanham de perto a rotina do filho, preocupando-se também com a alimentação do futuro campeão. “Não tomo mais guaraná, nem como coxinha, pastel, chocolate, tudo que é bom”, relata o tímido atleta. Mas, segundo ele, tem valido a pena todo o sacrifício, a contar pela quantidade de medalhas conquistadas e pelas perspectivas de ir mais longe no esporte.

Professor Anderson destaca como o garoto é focado. Em janeiro, os dois abdicaram das férias para treinar para a seletiva do Brasileiro. Esse esforço já foi reconhecido pela imprensa: em 13 de maio, a repórter do Globo Esporte PE, da Rede Globo NE, Nathália Dielú foi até o ECECC conhecer um pouquinho da história de Oséias e de sua dupla dedicação, à música e ao judô. Para o futuro, ele tem planos: “Espero subir na vida e ajudar a minha família. Quero ser um atleta muito bom, que pode ir além do impossível”, sonha. (PP)

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