Revista Criança Cidadã - Matérias

Perfil - Quando a música fala mais alto

Edição 20 - Maio/Agosto 2016

A música tem uma linguagem única e universal, mesmo sem entender de métricas e ritmos, os ouvintes conseguem se emocionar e entender, de forma subjetiva, a mensagem repassada. Diferente do que muitos pensam, não precisa necessariamente ser criança para aprender a desenvolver uma aptidão musical. O perfil da edição nº 20 da Revista Criança Cidadã traz um exemplo de compositor que começou a se relacionar tardiamente com a música e hoje é um dos grandes nomes da nova geração de compositores pernambucanos: Paulo Arruda.

Pernambucano do Recife, onde nasceu em 1977, sua primeira paixão foram os traços do desenho e as artes gráficas em geral. Quando criança, adorava assistir os programas do artista plástico Daniel Azulay, onde ele ensinava a fazer decalques. Em um primeiro momento, quando se busca uma relação entre a música e o desenho, é difícil achar um ponto onde as duas artes se encontrem. Porém, na vida de Paulo Arruda, as duas expressões sempre andaram de mãos dadas.

Os primeiros contatos com a música vieram aos 11 anos de idade. Muitos adolescentes da sua idade ouviam rock e Paulo Arruda começou a aprender a tocar violão. A partir do rock and roll, surgiram as curiosidades acerca da música erudita e instrumental. “Nessa época, eu ouvia os grandes nomes como Beethoven, Bach e Mozart. Era muito difícil conseguir um disco para ouvir. Por isso, eu pegava emprestado com alguns amigos e quando podia, comprava”, contou.

O contato do compositor com a música nacional erudita foi sendo fortalecido com as edições diárias do programa Clássicos Especiais, veiculado pela Rádio Universitária do Recife. Paulo Arruda ouvia e gravava algumas fitas cassetes com os programas mais interessantes, para ouvir posteriormente sempre que quisesse. Nessas ocasiões, foi apresentado à obra de Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Conseguir estudar no conservatório, naquela época, era muito difícil. Mas, no auge dos seus 15 anos, o ímpeto de adolescente sempre buscava uma forma de alcançar o que queria. Paulo Arruda tinha um amigo que estava estudando no Conservatório Pernambucano de Música, Dilton Monteiro, que ajudou Paulo a conhecer a instituição e mostrou-lhe alguns estudos, que ele repetia sozinho em casa. Mesmo sem ser oficialmente aluno do conservatório, Paulo começou a frequentar a biblioteca, estudar a teoria presente nos livros e assistir a algumas aulas como ouvinte.

Apesar de se dedicar à música, a carreira como designer seguia firme e já cobrava as suas responsabilidades. Aos 17 anos, Paulo Arruda começou a trabalhar com computação gráfica e produzia artes de comerciais e vinhetas para programas de TV. Dois anos depois, foi contratado para trabalhar no departamento de arte da Rede Globo Nordeste, onde ganhava bem e já conseguia comprar seus discos e livros. No entanto, a vida estabilizada, financeiramente, não o impedia de estar “volta e meia” atordoado com o estresse do trabalho.

Paulo Arruda seguia com a sua rotina profissional na televisão, prazos e mais estresse. Mas ainda lhe faltava algo para fazê-lo feliz por completo. Aos 26 anos, a morte do pai foi um duro golpe que, somado
a problemas no trabalho, o atirou numa depressão. “Esse foi o momento em que eu decidi largar tudo e mudar de vida. Com o dinheiro que recebi da televisão, poderia me manter por um bom tempo. Então decidi estudar música e fazer dela a minha nova profissão”, revelou o compositor.

TRANSMUDANDO A ARTE – Depois de construir uma vida profissional na área do design, chegava a hora de começar do zero. Paulo não conhecia quase ninguém na cena musical do Recife, mas as chances de estudar eram maiores. Ele conseguiu ingressar no Conservatório Pernambucano de Música e começou a ter aulas de baixo elétrico com o professor Marcos Araújo. Além das aulas de instrumento, “Marcão”, como era carinhosamente chamado pelos alunos, também ensinava harmonia e viu o interesse de Paulo Arruda pelo universo musical.

O professor o levava para tocar na noite e dar algumas ‘canjas’ em apresentações. Paulo foi formando grupos, fazendo arranjos e ganhando algum dinheiro com música. “Marcão foi mais que um professor, era como um pai pra mim. Foi ele que me incentivou a estudar baixo acústico, pois as chances de conseguir mais trabalho seriam maiores”, relembra Paulo Arruda.

O primeiro professor de baixo acústico (contrabaixo) foi José Chagas, depois seguindo-se os estudos com o professor Tales Silveira. Junto ao novo mestre, também tomou aulas particulares de harmonia e arranjo, por um período de três anos. Paulo Arruda já havia comprado o seu contrabaixo e dedicava-se ao instrumento e aos arranjos e composições.

Em 2008, o compositor escreveu a sua primeira obra, intitulada Pitombando no baião. Paulo Arruda escreveu a peça no I Concurso de Composição Moacir Santos para Banda, realizado pelo CPM. “Eu já tinha a peça pronta. Quando soube do concurso, fiz algumas adaptações e mandei para a seleção. Eu escrevi sem me identificar. Os jurados achavam que era uma obra de alguém de outro estado, pois procurei seguir um estilo diferente dos compositores locais. Sem menos esperar, minha mãe atendeu ao telefone em casa, dizendo que eu havia conquistado o primeiro lugar no concurso. Foi uma felicidade imensa”, contou.

No mesmo ano, conciliando o estudo no conservatório, Paulo ingressou no curso de licenciatura em Música pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Muito empenhado, e diferente da maior parte da turma, gostava mais da área de teoria musical. A universidade fortaleceu o seu gosto pela composição e as aulas de estética e harmonia, ministradas pelo professor Dierson Torres, foram de grande importância para dar mais qualidade ao seu fazer musical. “A disciplina de estética e harmonia é obrigatória e exige muita compreensão. Nem todos os alunos tinham interesse em se dedicar a ela (a disciplina). Eu sempre extraí o máximo que pude do professor Dierson e às vezes sentia que ele estava dando aula focado nas minhas dúvidas. Eu e outros alunos montávamos grupos de estudos e, quando entrávamos de férias, eu sabia que teria mais tempo para estudar as técnicas de composição”, comentou.

ENFIM, COMPOSITOR - A vida musical de Paulo Arruda estava sendo trilhada com maestria e mais conquistas viriam implementar o seu currículo. A Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano de Música tornou-se campo de atuação de Paulo a partir de 2010. Seu instrumento no grupo continuava sendo o contrabaixo, mas a vontade de compor tornava-se cada vez maior.

Segundo Arruda, ao contrário do que muitos pensam, compor é algo metódico e trabalhoso, e não uma inspiração que vem, levando o autor a escrever a obra do começo ao fim. Ele acredita que muitas ideias vêm de Deus, são divinas, mas é imprescindível saber em que momento aplicá-las ao longo da peça. “Minha música é extremamente ligada à tradição. Eu busco extrair sentimentos das pessoas que estão ouvindo o que eu escrevo. Acredito que a função da música é elevar a consciência e provocar uma reflexão no público”, explicou.

A habilidade de Paulo Arruda com o desenho também contribuiu para a elaboração das suas obras, nota por nota, todas milimetricamente organizadas, numa folha de papel. O músico edita as suas próprias partituras da forma tradicional, desenhando as escalas e acordes nos pentagramas. Durante quatro anos, o compositor no Cangaço de vida e morte, um poema sinfônico que traz a imagem do cangaceiro, da seca e da fé do sertanejo - sem recorrer ao regionalismo caricato, presente em algumas tradicionais obras nordestinas. Paulo Arruda
pediu ao maestro da orquestra do conservatório, José Renato Accioly, para tocar a peça em um concerto do grupo sinfônico. O regente concordou e a obra viria a ser estreada no final de 2012.

Ainda no mesmo ano, Arruda enviou a obra para participar do concurso Tinta Fresca, promovido pela Filarmônica de Minas Gerais. Concorrendo com compositores nacionais e estrangeiros, o Cangaço foi selecionado e também seria tocado pela filarmônica no mesmo ano. “O bom resultado no concurso me trouxe mais visibilidade como compositor. Fiquei muito orgulhoso, pois concorri com mestres e doutores em música e consegui uma excelente colocação. Passei a receber mais encomendas de arranjos. O professor Dierson Torres me disse: ‘continue assim, que seu caminho é esse”, relembra.

Em 28 de maio de 2014, sua peça foi tocada pela Orquestra Sinfônica do Recife, no Teatro de Santa Isabel, sob regência de Marlos Nobre. Em maio de 2015, ele participou novamente do Concurso Tinta Fresca e foi um dos finalistas com a peça Reza. A obra também foi inscrita para a Bienal de Música Brasileira Contemporânea, organizada pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), e recebeu a terceira maior nota do festival, quase sendo classificada para apresentação.

O FUTURO - Aos 39 anos, Paulo Arruda conseguiu mostrar que nunca é tarde para recomeçar, trilhar um outro rumo e trazer um novo sentido para a vida. O compositor fez parte da Orquestra Retratos, da Orquestra Sinfônica Jovem do CPM. É contrabaixista, arranjador, pianista, mas a composição continua falando mais alto. Paulo Arruda está finalizando a revisão de Reza, que será executada pela Orquestra Sinfônica do Recife em 2017. A convite do maestro da Orquestra Criança Cidadã, Nilson Galvão Jr., ele está escrevendo uma obra comemorativa aos 10 anos do projeto social que trabalha a musicalização de crianças e adolescentes no Recife. “Essa peça terá características do novo armorial, com uma maior expansão harmônica, mas sem perder as características da sonoridade da nossa terra. Também será uma obra animada, que retrata a juventude. Poderão ser vistos na composição temas como toada, aboio e galope”, descreve.

Um quarteto de cordas encomendado pelo Quarteto Encore, do qual faz parte a professora de violino da OCC Rafaela Fonsêca, também está sendo concluído. A composição será inspirada no conto Páramo, de Guimarães Rosa. Paulo Arruda está finalizando ainda outra obra para orquestra sinfônica, com o título de Umbra et Lux, op. 15. O compositor também trabalha numa composição para orquestra de câmara e meio-soprano solista, baseada nos Três poemas, da escritora Ângela Monteiro, além de mais uma obra comissionada pelos músicos Pedro Huff e Paula Bujes, escrita para violino e violoncelo, intitulada Modus III.

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