Revista Criança Cidadã - Matérias

Entrevista - “Eu faria tudo de novo, se fosse preciso”

Edição 20 - Maio/Agosto 2016

Do Sertão paraibano para a vida de crianças e adolescentes do bairro do Coque, no Recife. Esse foi o trajeto que João Targino fez até se tornar juiz, aos 24 anos, e também coordenador da
Orquestra Criança Cidadã. Nesta breve conversa, ele conta como nasceu o projeto, como é sua rotina como juiz e gestor e quais são as perspectivas para o futuro da Orquestra.

Como nasceu o sonho da Orquestra Criança Cidadã?

Trabalhei com o desembargador Nildo Nery quando ele era presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco e o objetivo de sua gestão era fazer uma política de prevenção, que acolhesse crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Ele me convidou para fazer parte do Programa Criança Cidadã e nesse projeto fizemos um coral com crianças moradoras de rua. Foi aí que tive um insight e pensei: por que não fazer uma Orquestra?

E o senhor sempre teve muita afinidade com a música clássica?

Eu ouvia, mas nunca havia pensado nisso antes. Acredito que Deus me proporcionou essa ideia e me “usou” como instrumento para criação desse projeto.

Como é sua relação com a religião?

Sou católico e tento ser um bom cristão; quase todos os domingos vou à missa, mas, pra mim, a religião maior é o amor. Peço muito a Deus, em minhas orações, saúde e sabedoria, para conseguir levar esse projeto adiante por muito tempo e ajudar a descobrir outros tantos talentos que existem por aí, que só precisam de uma oportunidade para se revelarem.

Como foi o contato com o Papa? O que o senhor falou para ele?

Ele é um ser humano com uma energia diferente. Depois da apresentação, eu disse que os meninos da Orquestra eram pobres de bens materiais, mas ricos de talento, da graça divina. Ele respondeu: “certamente”.

O senhor além de gerir a Orquestra é juiz da 9ª Vara de Família no Fórum Rodolfo Aureliano. Como é sua rotina?

Pela manhã, eu trabalho na Orquestra e a partir das 14h eu vou para o Fórum, onde fico até as 18h30. Quando chego em casa, respondo e-mails e faço ligações.

O senhor sempre quis ser juiz?

Desde criança. Meu pai foi juiz de Pombal, no interior da Paraíba, e desde os sete anos eu já sabia fazer casamentos, porque o observava muito. Então, ele sempre foi uma inspiração pra mim.

Como foi sua infância em Pombal?

Foi bem diferente do que minha filha de 13 anos vive hoje. Hoje, as crianças vivem trancadas. Eu corria muito, brincava, era goleiro, apesar da altura (risos). Mas também sempre fui um menino muito estudioso, gostava de assistir ao Jornal Nacional, de ler revista. Via muito minha mãe lendo a Revista Manchete. Peguei esse hábito.

Tem algum momento do dia em que senhor para?

Logo quando acordo faço caminhada, porque me ajuda bastante a arejar a cabeça, já que passo o dia pensando, resolvendo assuntos e é nesse momento onde dou uma desacelerada.

E todo esforço para conciliar magistratura, vida pessoal e Orquestra tem valido a pena?

Com certeza. E eu faria tudo de novo se fosse preciso. É muito bom você ver os resultados da Orquestra. São esses resultados que me motivam diariamente a continuar coordenando o projeto. Ele é parte de mim, por isso, utilizo tanto do meu tempo para essa causa. É difícil, porque a gente corre em busca de patrocínio, ajuda, mas tem dado certo.

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