Revista Criança Cidadã - Matérias

Capa - Dez anos de música e histórias

Edição 20 - Maio/Agosto 2016

Dona Vera acorda todos os dias às 4h45, para estar às 7h na Orquestra Criança Cidadã no bairro do Cabanga. São aproximadamente 23 km de Maranguape II, em Paulista, até a sede do projeto, no Recife. Vera Gomes de Paula é auxiliar de serviços gerais há oito anos na ONG, onde teve sua primeira experiência com carteira assinada. Hoje, com 53 anos, casada, dois filhos, uma filha e um neto, a funcionária diz-se satisfeita com o trabalho.

Ela é uma das pessoas que tiveram a vida transformada pelo convívio com o projeto. Os concertos, os prêmios, as viagens, os projetos, tudo isso está presente nas páginas não só desta, mas de todas as edições da Revista Criança Cidadã. Nesta matéria, a palavra está com aqueles que constroem o dia a dia da OCC e que ajudaram a engrandecer o projeto em seus dez anos de existência. “Me sinto muito bem aqui. Faço o possível para conquistar meu espaço e agradeço essa oportunidade”, diz D. Vera. Ela já trabalhou em outras ONGs antes de chegar à Orquestra por intermédio do
Maestro Cussy de Almeida, mas há um diferencial no espaço. “A música que a gente escuta enquanto trabalha acalma. Às vezes, eu paro, peço pra os alunos tocarem Carinhoso, My Way. Acho lindo! Ou então eles vêm me mostrar o que estão ensaiando. Fico muito orgulhosa de fazer parte dessa história e poder ajudá-los com algum conselho, como se fossem meus filhos”, conta.

Quem também chegou à OCC através do Maestro Cussy foi o professor de contrabaixo João Pimenta, que está no projeto desde a fundação, há dez anos. Atualmente, onze alunos têm aulas individuais com Pimenta, que embora tenha fama de rigoroso, tem facilidade para se relacionar com os alunos. Para ele, a relação amigável se dá quando eles demonstram interesse em aprender. “Se um deles está desinterassado, prejudica todo o grupo. É um desrepeito com os colegas. Então, a gente chega junto para fazer com que todos trabalhem em harmonia”, explica.

A tentativa, segundo o professor, é buscar um equilíbrio entre cobrar e deixar que os alunos se sintam relaxados na hora de aprender. Para Pimenta, seu maior prazer é fazer música e estar na Orquestra, porque não é um instrumento para vaidosos, que terão destaque fazendo solos, por exemplo. Outro desafio de quem toca é vencer o tamanho do contrabaixo e a dureza das cordas que, no começo, podem machucar. “É uma honra fazer parte do projeto e ensiná-los a base sonora de uma Orquestra.

Me sinto muito bem. É bom vê-los evoluindo”, acrescenta. Já a principal função de Aldir Teodózio, coordenador pedagógico do Núcleo do Coque da OCC há quatro anos, é ligar professores e alunos e facilitar o processo de aprendizagem. Antes de ser coordenador, Aldir ensinou durante um ano Teoria Musical e, com a mudança de cargo, também foi preciso mudar o comportamento. “Quando eu era professor, os meninos diziam que eu era mais legal. Agora dizem que sou chato, mas tem que ser. A gente cria relações de amizade, mas é preciso limites e respeito”.

No cotidiano, o mediador acompanha de perto os alunos, através do que os professores relatam. Entretanto, também há um esforço para que o bom relacionamento entre os mestres e eles exista. É preciso, segundo Aldir, ser diplomático e político para evitar conflitos desnecessários que prejudiquem no desempenho dos alunos. “Tento destacar sempre a importância de todas as matérias na formação dos meninos, para que haja uma formação integral”, detalha.

Para uma formação multidisciplinar, a Psicologia se faz igualmente necessária. Flávia Feliz é psicológa, com experiência em projetos sociais, e está na Orquestra desde fevereiro de 2016. A importância da Psicologia é destacada pela profissional que tenta orientar os alunos nessa transição de mundos: “Por muitos virem de uma realidade de risco, onde a violência é banalizada, é essencial que a gente acompanhe esse processo de mudança para um novo ambiente. Afinal, aqui eles têm acesso a um outro mundo, onde regras são importantes e, muitas vezes, eles não estão acostumados”, explica.

Além do atendimento individual e de um horário reservado na grade de horários às sextas pela manhã, há os grupos operativos, que escolhem temáticas específicas para serem discutidas tanto com formações menores, quanto maiores, através de palestras mensais. Existe ainda a orientação vocacional para os mais velhos decidirem com mais certeza para que vão prestar vestibular. Outro aspecto fundamental para que dê certo é a participação familiar, que, segundo Flávia, é essencial, porque sem a família não há como sanar todas as dificuldades. “Não podemos fazer algo aqui que será desconstruído depois”, pontua. E, em pouco tempo, a psicóloga tem conseguido bons resultados, como num caso de um aluno recém-chegado que era extremamente problemático, não sabia se comportar e tinha dificuldade de internalizar as regras. A solução foi aproximar a família desse trabalho.

Com a cooperação dos familiares e com o apoio psicológico, o garoto se tornou um exemplo de comportamento. Atualmente, para que todo trabalho desempenhado pelos funcionários da Orquestra seja possível, é necessário o apoio financeiro de parceiros, como o grupo de energia EBrasil, que está com a OCC desde 2014. A empresa procurou o projeto por considerá-lo sério para investir recursos e cumprir seu papel de responsabilidade social. “Para nós é uma honra ter um brilhante relacionamento com um projeto de vulto tão grande, no Estado de Pernambuco. Estamos bastante satisfeitos com os resultados sociais e artísticos”, disse Dionon Cantarelli, diretor-presidente da EBrasil.

COMEMORAÇÕES - Dez horas da manhã do dia 25 de julho de 2016. Dez anos antes era realizada a inauguração da Orquestra Criança Cidadã. Para comemorar o aniversário de nascimento, uma missa em ação de graças foi celebrada pelo padre Caetano Pereira na Capela Dourada, no bairro de Santo Antônio. No repertório, executado por um grupo de câmara da OCC e regido pelo maestro Nilson Galvão Jr., estiveram presentes compositores como Händel, Bach, Franck e Schubert. Na homilia, o padre relembrou um pouco da trajetória do projeto e destacou que a Orquestra é o cartão de visitas de Pernambuco, onde é possível que se desabrochem as potencialidades dos jovens assistidos.

O grande concerto oficial em comemoração aos dez anos será no dia 02 de setembro, às 19h30, no Teatro Luiz Mendonça, do Parque Dona Lindu, em Boa Viagem. Os ingressos são gratuitos e limitados. Estão confirmados para o repertório, a Sinfonia n° 9 “Do novo mundo”, do tcheco Antonin Dvorák (1841- 1904), e Introdução e rondó caprichoso, do francês Camille Saint-Saëns (1835- 1921), com participação especial da violinista japonesa Yoko Kubo.

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