Revista Criança Cidadã - Matérias

Orientação - Do manuseio ao acondicionamento

Edição 20 - Maio/Agosto 2016

Possuir um instrumento de música tem uma implicação inicial: saber cuidar dele, pois um instrumento,
além de ser a voz do músico, é uma ferramenta de trabalho e estudo. Porém, ao contrário da maior parte dos bens de consumo, um instrumento musical – a depender de seu fabricante - tende a ter uma durabilidade extrema e manter a qualidade de som durante várias gerações (ou séculos, a contar pelos célebres instrumentos de cordas do período barroco que valem fortunas cada vez mais maiores à medida que as décadas passam), principalmente se a manutenção é adequada.

No caso dos instrumentos de sopro, os cuidados se direcionam a componentes específicos de madeira e metal, de precisão micrométrica, cujo reparo pode demandar bastante dinheiro em caso de dano, além da privação do instrumento por dias ou semanas, deixando o músico sem alternativas de desempenhar seu ofício. Na Orquestra Criança Cidadã, há cinco instrumentos de sopro à escolha dos alunos interessados: as quatro madeiras sinfônicas - flauta (mesmo de metal, ela é tratada como madeira, seu material original), oboé, clarineta e fagote
- e a trompa, um metal, que, junto com as madeiras, forma um quinteto de sopros tradicional. Futuramente, a OCC planeja abrir turmas dos outros três metais sinfônicos: trompete, trombone e tuba.

O núcleo de sopros da Orquestra funciona no Núcleo do Coque desde o segundo semestre de 2012 e deu origem ao Grupo de Sopros da OCC, um dos conjuntos musicais representativos do projeto, ao lado do Núcleo Popular, do Grupo Sonoru’s (de flautas doces) e das orquestras Jovem, Infantojuvenil e do Preparatório. O manuseio de instrumentos da família, portanto, é uma rotina entre alunos do Coque. Por isso, conversamos com os respectivos professores para saber dos cuidados imprescindíveis que os estudantes devem observar no cotidiano.

Todos foram unânimes em apontar o primeiro deles: sempre colocar o estojo do instrumento sobre uma mesa, antes de ele ser aberto, para que qualquer parte ou acessório não caia no chão. O segundo cuidado também é imprescindível: nunca pegar o instrumento pelas chaves, que são muito sensíveis, e, sim, pelo corpo. O terceiro, não menos: antes de se guardar as partes, limpá-las interna e externamente, para não acumularem resíduos de suor, digitais e ar condensado.

A professora da OCC e clarinetista Cláudia Pinto recomenda ainda aos estudantes que lavem as mãos e escovem os dentes antes de tocar, e reforça outros dois pontos: a lubrificação das cortiças nos encaixes entre as partes, e a limpeza das sapatilhas (pequenas peças à base de feltro e lã que impedem o atrito direto das chaves com a madeira do instrumento). “A montagem da clarineta deve
ser feita de baixo para cima (da campana à boquilha). E, quando terminar de tocar,
desmonte e limpe o instrumento”, acrescenta.

Por sua vez, o professor de fagote da OCC Josias Felipe, que já atuou como convidado da Orquestra Sinfônica do Recife e da Banda Sinfônica da Cidade do Recife, chama atenção para o tamanho peculiar do instrumento, o maior da família das madeiras, que requer ajuda para montagem quando o estudante é uma criança. “Para o instrumento durar, é preciso que seja do tamanho adequado para o aluno”, explica. Para se ter uma ideia do prejuízo caso um fagote se inutilize, uma clarineta nacional nova custa a partir de 700 reais; já um fagote profissional, de fabricação alemã, segundo o docente, sai entre 32 e 42 mil euros (um semiprofissional, 14 mil euros).

MANUTENÇÃO - Quando é necessário enviar o instrumento para conserto ou manutenção, segundo os professores, há poucas opções de ateliês: eles citam três de clarineta no Recife; dois de flauta, em São Paulo e em Minas, e dois de fagote - Mauro Ávila, no Rio, e Hary Schweizer, em Brasília, que também é lutiê de
fagotes. “Pequenos reparos, como troca de cortiças e sapatilhas, os próprios
fagotistas fazem”, explica Josias. O fagotista alerta acerca dos profissionais que se arriscam a fazer intervenções não especializadas: “Alguns ateliês de sax e clarineta se aventuram a fazer reparos nos fagotes e o instrumento volta desregulado”.

No mais, os fabricantes de instrumentos costumam designar técnicos, em congressos de instrumentistas, para capacitar os próprios músicos a fazer ajustes de menor porte, afora procedimentos mais simples, como desmonte total e lavagem, que os instrumentistas de metal devem saber para realizar anualmente. “Existem pessoas que estão estudando isso (reparo e manutenção) por necessidade”, conta Eneyda Rodrigues, que
ensina flauta na Orquestra Criança Cidadã e na Escola Técnica Estadual de Criatividade Musical do Recife. Em caso de consertos mais sérios, a professora prefere confiar a tarefa a um ateliê de São Paulo.

No entanto, uma peça – fundamental para clarinetas, oboés e fagotes – nãoserá tratado como as demais bagagens de porão em viagens aéreas (por mais que se ponha a etiqueta de “frágil”).

Para a higiene do instrumento em si, professora Eneyda indica comprar kits prontos, com flanela, gaze e papel vegetal, que servem tanto para flautistas quanto para os demais madeiristas. Já José Wilker, professor de trompa, descreve procedimentos mais específicos, como a regulagem das bombas de afinação, que devem permanecer fechadas (mesmo sem o instrumento estar em uso), a fim de conservar o lubrificante dos encaixes delas; a troca do creme lubrificante a cada 15 dias e a do óleo dos rotores a cada semana. Nos instrumentos de metais, há ainda uma pequena válvula para escape de ar condensado, o salivador, que é ausente na maioria das trompas, então é preciso atenção ao virar a campana de cabeça para baixo ao se descartar a saliva acumulada.

Roberta Belo reforça que o manuseio do instrumento tem importância igual à do aprendizado técnico. “Às vezes eu passo um mês ensinando a montar, porque na montagem mesmo o aluno pode quebrar o oboé. Já a palheta deve ficar cinco minutos na água, antes de usar. Trabalho a respiração estando-se sentado e em pé”, detalha a professora. E uma curiosidade: José Wilker mostra um singular acessório preso à parte de trás da trompa: um pequeno porta-lápis, que acomoda discretamente um grafite. “É sempre bom ter um lápis, para fazer as anotações que o maestro passa durante os ensaios”, diz o trompista.

Antes de cuidar de um instrumento, o primeiro passo é adquirir um, cujo desembolso - como visto acima - se distancia muitas vezes do conceito de preço popular. A indisponibilidade de financiamento bancário nesse quesito nunca foi revertida por uma articulação política da classe musical, por mais que a afete permanentemente; e uma decisão de compra precipitada, guiada pelas limitações orçamentárias, pode implicar
em prejuízos futuros. Em vez de investir em uma trompa chinesa de 2 mil reais, por exemplo, o professor Wilker aconselha: “É melhor comprar uma trompa usada de marca de procedência. Há marcas atuais que oxidam rápido e vêm com problemas de afinação”. tem como ser reparada: a palheta, feita de cana e encaixada na parte anterior da boquilha da clarineta (ou, melhor dizendo, inferior, já que ela fica na horizontal quando se põem os lábios) ou nos tudéis (finos “canos” de metal) do oboé e do fagote. Como as palhetas dependem da qualidade da cana e do corte feito por quem a confecciona, não é sempre que elas servem para o músico. “É um jogo de sorte. Às vezes a cana já vem ruim”, diz professora Claudia. A professora de oboé Roberta Belo acrescenta que, antes de tocar, precisa-se umedecer a palheta e, depois da aula ou da apresentação, secá-la com uma flanela. A peça tem vida útil de 15 a 30 dias, custa em média R$ 70 e pode ser adquirida em lojas de instrumentos, sites (como o Armazém do Sopro) ou direto com os professores que saibam confeccioná-la.

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