Revista Criança Cidadã - Matérias

A arte de reger

Edição 01 - Abril/Maio 2010

Existe um ditado popular que diz: "O bom filho a casa retorna". No entanto, em certos casos, não é sempre que ele chega a deixá-la. Trabalhando há 23 anos no Conservatório Pernambucano de Música (CPM), o maestro José Renato Acioly começou a ensinar na escola de música aos 21 anos e percorreu uma trajetória de estudo e dedicação, na qual saltou de professor iniciante para maestro profissional. Praticamente um filho do Conservatório, foi professor, regeu coros e orquestras da instituição e, atualmente, coordena e rege a Orquestra Sinfônica Jovem, criada em parceria com o maestro Sérgio Barza, em 2006. Em entrevista à Revista Criança Cidadã, ele falou um pouco sobre a carreira, trabalho, música erudita em Pernambuco e ação social.

Experimentando a música

José Renato começou a estudar música bem cedo, no Centro de Educação Musical do Colégio de São Bento, em Olinda. Lá estudou canto coral, piano e teve sua primeira experiência como regente, quando o maestro do coro o convidou para ser maestro-assistente. Fez cursos de Extensão em Piano e Licenciatura em Música, ambos na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Aos 19 anos, foi convidado para ensinar na escola onde iniciou seus estudos e no Centro de Criatividade Musical. Dois anos depois, ainda como universitário, começou a ensinar no Conservatório e ficou até hoje. Apesar dos altos e baixos, o maestro não mede esforços pela instituição. "Eu me apaixonei por aqui", afirma.

Quando ingressou no conservatório, em 1987, ensinava disciplinas como teoria musical e história da música. Em 1990, foi aprovado no concurso para se tornar maestro do coro, o qual passou 12 anos regendo. Em parceria com o maestro Sérgio Barza, surgiu, posteriormente, a iniciativa de montar uma nova orquestra. "O Conservatório não tinha mais orquestra de câmara. A gente teve uma orquestra de câmara de excelência na época do Maestro Cussy de Almeida, a Orquestra de Câmara Armorial. Em 1995, a gente fundou a Orquestra de Câmara de Pernambuco - Extinta em 2002, a Orquestra de Câmara deu lugar a outro projeto mais ambicioso, que nasceu quatro anos depois. Era a Orquestra Sinfônica Jovem do CPM.

A Orquestra Sinfônica Jovem é regida e coordenada por José Renato, que se dedica exclusivamente a ela. Orgulhoso de seu projeto, ele mostra que os resultados já estão à vista: "De 2006 até 2009, dentro do projeto de apresentações oficiais, nós fizemos 66 apresentações, tendo cada ano uma programação de repertório e uma agenda de concertos estabelecida". Segundo José Renato, é feito uma seleção anual para novos músicos da orquestra. "É importante dar oportunidade para que novos componentes ingressem na orquestra. Evidentemente que se um jovem do ano passado quiser fazer o teste, ele tem vantagem, pois ele já tem a experiência de uma temporada. - Ainda acerca do corpo da orquestra, José Renato faz uma ressalva: "A maioria dos alunos que compõem o grupo são do conservatório, mas ela está aberta a qualquer jovem que esteja interessado em participar".

Sobre o trabalho

O Conservatório Pernambucano de Música está completando 80 anos em 2010. Diante dessa comemoração, José Renato aponta conquistas e questões a melhorar, sem pessimismo ou rancor:

"Agora somos uma superintendência da Secretaria de Educação, não mais autarquia. Isso trouxe, para a gente, uma série de prejuízos, mas estamos buscando uma solução para essa situação administrativa. Fora isso, o conservatório, estes últimos anos, vem se estruturando. Temos uma leva nova de professores e a escola foi reconhecida como curso profissionalizante a nível médio, pelo MEC. Agora nós somos uma escola de nível técnico. E está bem cuidada, a estrutura. A gente estaria em uma média boa nesse sentido."

O maestro afirma que o objetivo é focar no trabalho e não desanimar:

"No cenário brasileiro, você ter uma instituição que tem 80 anos, num país jovem como o nosso, já é uma coisa extremamente importante. No cenário regional, nem se fala. O conservatório passou por muitas fases e está buscando o aprimoramento. Eu acho que, se fosse possível traçar uma meta para os próximos 20 anos, o objetivo seria buscar mais excelência. Quanto mais profissional, melhor."

Sobre o cenário musical de Pernambuco

Para José Renato, a grande questão do cenário da música no Pernambuco é a oportunidade, a chance para se destacar:

"No que se refere à música popular, tudo bem. No que se diz a respeito da música erudita, precisamos de espaço profissional. Precisamos de uma orquestra profissional, um coro profissional da prefeitura... A gente tem apenas uma orquestra profissional, a Orquestra Sinfônica do Recife, que não pode absorver a quantidade de alunos que se formam, pois existem várias escolas de música aqui. Precisamos estimular outros órgãos a incentivarem o crescimento e a criação de conjuntos, se não sinfônicos, conjuntos menores, de câmara. Porque os músicos precisam viver."

A consequência dessa falta de espaço em Pernambuco abre margem para a fuga de talentos em busca de mercado em outros estados ou países.

"Uma coisa que me preocupa muito é você ensinar, estar exigindo do aluno uma forte dedicação, e Pernambuco não ter esse mercado. Eu sinto muito a gente perder, no bom sentido, um jovem que se forma aqui e vai para outro estado, pro sul do país, ou até mesmo pra fora do Brasil."

Sobre música erudita

osé Renato não cresceu ouvindo música erudita, mas isso não o impediu de se interessar por esse estilo musical. Segundo ele, o interesse pela música clássica é uma questão de chance para conhecer. Além disso, é preciso que o público compreenda mais o que significa a música erudita e qual é sua proposta:

"Aqui, o conservatório é muito rico nesse sentido. Temos muitos alunos. Mas se o jovem gosta ou não de música, é questão de acesso. Por exemplo, em que rádio você ouve tocar música clássica? É um tipo de linguagem que precisa de inserção dentro do que ela significa. Não é uma linguagem comum. Você pode até gostar só por ouvir, mas tratar do significado disso também é importante."

Sobre projetos de ação social

niciativa para ação social rima com música, na visão do maestro José Renato. De acordo com ele, o ensino musical se torna um instrumento de sensibilização e humanização, principalmente com jovens carentes:

"Música, esportes, artes em geral, todas essas atividades são extremamente saudáveis pra os jovens, principalmente em áreas de risco como o Coque. A música, em especial, traz ao jovem uma realidade que ele não teria acesso se não houvesse esse tipo de ação, e faz um bem enorme não só a ele, mas também a sua família."

Projetos como a Orquestra Criança Cidadã, para José Renato, é um exemplo de ação social que funciona perfeitamente:

"Acho um trabalho excelente, uma iniciativa vitoriosa. E o resultado já está aí pra quem quiser ver. Não é um sonho, é uma realidade. Que fiquem muitos anos aí, cumprindo sua função, como está cumprindo hoje. Estão de parabéns!"

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