Revista Criança Cidadã - Matérias

Orquestra dá início à agenda de concertos

Edição 06 - Março/Abril 2011

Meninos do Coque homenageiam Vivaldi tocando “As Quatro estações” na primeira apresentação pública do ano

O ano de 2011 não poderia ter começado melhor para a Orquestra Criança Cidadã. Os Meninos do Coque, que não se apresentavam em concerto aberto desde dezembro do ano passado, inauguraram a nova agenda. E para começar o ano em grande estilo, os garotos homenagearam um dos grandes nomes da música clássica: o compositor e músico italiano Antonio Vivaldi. “As Quatro Estações” foi o repertório do concerto, que aconteceu no dia 20 de março, na Igreja da Madre de Deus, com a participação especial da cravista Andréia Rocha e do violinista Alexandre Casado.

Foi a primeira vez que os meninos executaram “As Quatro Estações” na íntegra. “Antes, nós só apresentávamos arranjos dessa peça. Agora, que alcançamos um nível mais avançado, executaremos ela toda”, disse a violista Rebeca Muniz. A obra, do estilo barroco, é uma das mais conhecidas de Vivaldi. Trata-se de um conjunto de quatro concertos para violino e orquestra. Cada um deles contempla e faz referência às estações do ano.

O concerto estava marcado para as 17 horas. Mas, antes mesmo da hora prevista, a Madre de Deus já estava lotada. Não havia mais lugares para sentar. Quem chegava, ia se acomodando como podia. Passado algum tempo, uma chuva de aplausos ecoou pela igreja: eram os Meninos do Coque que haviam acabado de entrar em cena. Uma segunda salva de palmas marcou outra estreia que aconteceria no concerto, além do repertório: o novo regente oficial, Lanfranco Marcelletti, pela primeira vez, conduziria os pequenos músicos publicamente.

Após um discurso breve, Marcelletti convidou a plateia a apreciar o espetáculo, que se iniciou com a peça “Adágio e Fuga”, de Mozart, seguida, então, por “As Quatro Estações”. A apresentação toda durou pouco mais de uma hora. Sob muitos aplausos, a Orquestra Criança Cidadã ainda executou um bis de um dos trechos da obra de Vivaldi, antes de deixar o palco.

O renomado violinista pernambucano Alexandre Casado, que atuou como solista, ficou muito feliz em tocar junto com os Meninos do Coque. “É um dos trabalhos mais bonitos que conheço, por que eles pegam esses meninos e constroem algo sólido, algo que você vê, ouve e sente. É algo que realmente não se explica, é maravilhoso”, disse o violinista. Em especial, ele ressaltou o desempenho de Herlane Francielle da Silva, que executou o solo de violoncelo. “Ela toca muito bem, foi formidável”, afirmou.

Vivaldi - O compositor das “Quatro Estações”

O compositor homenageado no primeiro grande concerto da Orquestra Criança Cidadã em 2011, Antonio Vivaldi, não foi escolhido ao acaso. Dono de peças joviais, claras e facilmente assimiláveis, a obra do músico é reconhecida logo nos primeiras notas, principalmente “Primavera”, que compõe “As Quatro Estações”. Mas o que tornou Vivaldi tão conhecido e admirado até bem longe da Itália, sua terra natal?

Antonio Lucio Vivaldi foi, além de músico – tocava violino –, compositor e padre. Ele nasceu em Veneza e viveu entre 1678 a 1741. Era a época que os historiadores da arte chamam de barroco italiano. Como todos os compositores da música barroca, incluindo Bach, ele ficou esquecido por todo o século XIX e parte do século XX. Intérpretes como o violinista austríaco Fritz Kreisler, os italianos Alfredo Casella – pianista –, Arturo Toscanini – regente – e o violinista americano Louis Kaufman ajudaram a reviver a música de Vivaldi. Kaufman muito ajudou nesse revival, com sua gravação das “As Quatro Estações” de 1947 (Grand Prix du Disque em 1950).

As principais características das composições de Vivaldi estão na jovialidade, na clareza, na alegria e no fácil aprendizado, além de ser tecnicamente incontestável. Vivaldi exige, para quem toca suas obras, muita exatidão, pulso firme, afinação, concentração, técnica e musicalidade. Suas influências foram o pai e primeiro professor, Giovanni Battista Vivaldi, compositor e Mestre Capela de São Marcos (Veneza). Provavelmente, ele teve contato com a rica música que se fazia em Veneza, Vicenza, Mantua e, posteriormente, Viena, local em que ficou até o fim da vida.

Segundo o professor de História da Música do Conservatório Pernambucano (CPM), Sérgio Barza, estudar Vivaldi é fundamental para entender melhor a música, principalmente para quem deseja ser profissional da área. Ele afirma que Vivaldi proporcionou um vasto catálogo de obras eruditas, desde peças mais simples, de dificuldade média, até as mais trabalhosas. “A sonoridade exigida, a exatidão e a afinação são aspectos que ajudam no desenvolvimento do aluno de música. Esse ilustre compositor barroco desafia a dificuldade técnica. Precisamos de muita prática para conseguir tocar suas composições”, explica o professor.

De acordo com Barza, embora Vivaldi exija muita perícia, do ponto de vista do ouvinte sua obra se sobressai pela identificação, justamente por representar o estilo barroco italiano tão bem: belas melodias permeadas por formas definidas. Para o aluno, há peças para diversas etapas de aprendizado.

Vivaldi se diferenciou dos demais compositores por ajudar a estabelecer o concerto para instrumento solo num estilo composicional, que se torna predominante nos séculos seguintes. Antes, as performances estavam firmemente baseadas no contraponto e nas danças tradicionais. Ele é um dos grandes responsáveis por mudar essa tendência, propondo uma música estruturalmente lógica, com formas definidas em larga escala. Nesse sentido, o compositor é mais importante na música instrumental que na vocal, embora suas óperas e peças sacras tenham sido bem recebidas na época.

Vivaldi é visto, hoje, como um dos principais autores e artífices do barroco italiano tardio, um músico tão importante que influenciou Johann Sebastian Bach. “Um autor importantíssimo para a compreensão da música como produção representativa da sociedade de uma época. Também mostra como a arte musical independe de classe social para atingir e sensibilizar as pessoas”, finaliza Barza.

Você sabia?

A denominação “música clássica” não é sinônima de “música erudita”. O termo “música clássica” tem um sentido maior e mais preciso: é a música composta na época classicista. É mais correto dizer – quando se engloba um concerto de várias músicas – que estamos admirando música erudita. O nome “erudito” é o conjunto das várias épocas da história da música: barroca, romântica e clássica, entre outras.

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