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02/maio/2010

Cidadania: da ponte à casa própria

Moradores deixaram o sereno das ruas e hoje estão abrigados em um conjunto habitacional

Pela Folha de Pernambuco
O Conjunto Habitacional Limoeiro, no bairro de Santo Amaro, não é o mais limpo, o mais organizado nem o mais bem cuidado residencial construído no Recife para abrigar pessoas carentes. Ainda assim o catador de material reciclável Rivaldo Roverlan da Silva, 51 anos, tem certeza que o local - onde ele mora com a mulher, filhos, genro e uma neta na casa simples de número 15 - é o paraíso. "Tem um ditado que diz que a gente só reconhece uma coisa boa quando perde. No meu caso é o contrário, antes eu não tinha noção de como era ruim a situação em que eu vivia", define Rivaldo, que é líder comunitário do conjunto.

A família dele era uma das que viviam em uma comunidade conhecida como Vila dos Morcegos - o nome se deve ao fato de as pessoas morarem em barracos "pendurados" embaixo da Ponte do Limoeiro, que liga o bairro do Recife a Santo Amaro. O lugar não oferecia condições mínimas de limpeza, sofria com a violência e a subida da maré. O direito à moradia digna foi uma conquista dos habitantes do local, que foram várias vezes à Prefeitura do Recife no ano de 2004 até conseguir o terreno onde hoje moram. "Essa foi uma batalha que nós, moradores da antiga Vila dos Morcegos, vencemos. Hoje temos muitas marcas dessa vitória aqui", lembra Rivaldo.

O conjunto habitacional foi construído com a mão de obra dos próprios moradores da Vila dos Morcegos e de vizinhos do bairro de Santo Amaro, o que ajudou a estreitar os laços entre as pessoas que já viviam no bairro e os novos vizinhos. "Eles tinham preconceito com a gente, mas como nos ajudaram a construir as casas e passaram a nos conhecer. Não entramos como estranhos", explica o morador. Nem todos que vieram da Vila dos Morcegos, porém, permanecem no residencial. Segundo os moradores, os proprietários de uma casa resolveram vendê-la, o que é considerado ilegal pelo acordo firmado entre a Prefeitura e o proprietário do imóvel, que costuma ser a mãe da família.

Ter um teto, um endereço onde receber os amigos, um lugar para estabelecer a vida com os direitos de um cidadão são as maiores benesses apontadas pelos ex-moradores da Vila dos Morcegos. Mas as mudanças são muito mais profundas, segundo aponta Rivaldo. "Todos aqui melhoraram muito, inclusive em comportamento. Hoje a maioria das pessoas tem um trabalho, os meninos tão indo para a escola e a gente tem posto de saúde aqui perto. Não tem como comparar a vida que a gente tinha com a de hoje", exulta Rivaldo.

Nem tudo, porém, é perfeito no Conjunto Habitacional Limoeiro. A principal reclamação dos moradores se refere à escola municipal Lutadores do Bem, que fica ao lado do residencial. Construída para atender as crianças que vivem no local, a escola só tem turmas até a 4ª série de Ensino Fundamental, o que obriga os alunos a procurar escolas mais distantes, nos bairros da Boa Vista e dos Coelhos, para continuar estudando. A ampliação do espaço foi prometida aos moradores, mas até hoje não saiu do papel. Outra demanda da comunidade é a manutenção dos brinquedos instalados na área comum do residencial, uma das poucas opções de lazer do local.

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